Artigo

A autonomia das redes e a especialização do indivíduo

TARCISIO PADILHA JUNIOR*, Jornal do Brasil

Rapidez das mudanças, ausência de organização estável, desaparecimento de quadros de referência. Mas vivemos numa sociedade onde a crença na razão e no respeito aos direitos individuais ocupam lugar central. 

A modernidade começa com a capacidade de autocriação da vida social, que pode conduzir às descobertas da ciência, à criação de obras de arte ou de instituições. Em nossa vida cotidiana, é inquestionável a diferença entre o sentido que atribuímos a uma situação e a maneira como a vivemos. 

Desconhecemos o sentido mais profundo das nossas palavras e dos nossos atos; ao mesmo tempo, porém, sabemos que um drama está a ser vivido e que também uma escolha é proposta ou recusada. Corremos o risco de ser enganados por um sentido havido nos sistemas de organização, decisão e ação. 

É inaceitável definir a atual sociedade como restrita ao materialismo dos interesses e das emoções. Inaceitável que elimine grandes respostas religiosas ou morais em que sempre buscamos apoiar-nos. Há que manter consciência de um intervalo entre funcionamento da sociedade e exigências individuais. 

Mas não se compreende uma melodia examinando-se cada nota sem relação com as demais. Imaginemos um grupo de músicos que está em plena execução de certa música em uma orquestra. Movimentos feitos por cada um são inteiramente combinados e sincronizados, com os demais. Se qualquer um fosse considerado isoladamente, as funções de seus movimentos não poderiam ser entendidas. 

A influência de uma pessoa sobre outras, sua importância para elas, pode ser especialmente grande; mas a autonomia da rede onde ela atua é incomparavelmente mais forte. O entremear dos atos, planos e propósitos de muitos origina constantemente algo não planejado, pretendido ou criado por uma. 

As formas especiais de comunicação e cooperação constituem a condição básica de sobrevivência. A capacidade de preservação seletiva das experiências é fator que desempenha um papel decisivo na individualização: quanto maior a diferenciação nas experiências, tanto maior a individualização. A ordem social, diferente da ordem natural, deve sua existência à peculiaridade da personalidade humana. Depende não apenas do talento ou da inteligência, mas do estado de desenvolvimento da sociedade. Com a crescente especialização, a trajetória do indivíduo para se tornar pessoa autônoma é mais longa.

* Engenheiro