Artigo

Vencer, vencer, vencer

LUIS ERLANGER*, Jornal do Brasil

Corrupção, violência, desemprego, combustível, educação, alimentos, saúde, tantos problemas bem mais sérios e eu venho aqui falar sobre o Flamengo. Na verdade, porque não se trata de analisar a performance de um time, mas de como a imprensa, em geral, enfrentando uma crescente crise de credibilidade, passou a abordar a nossa realidade em todos os campos. Incluindo os de futebol. Vamos lembrar que o Flamengo, com 40% dos torcedores brasileiros, é uma empresa.

A próxima eleição no clube será em dezembro, a mobilização das candidaturas já é febril e o torcedor-votante virou alvo de constantes pesquisas de intenção de voto. Pela avaliação geral da mídia, a administração de Eduardo Bandeira é um destacado e raro exemplo de eficiência. Tudo por conta da significativa redução da exorbitante dívida que encontrou – de uns R$ 700 milhões para R$ 450 milhões, com uma receita de R$ 595 milhões.

Cuidar das finanças virou mérito extraordinário, quando é uma obrigação básica. Deveria até haver punição, mesmo sendo iniciativa privada, para o mau uso de recursos e desequilíbrio fiscal. Só que o “core business” do Flamengo é futebol. O resultado em futebol se mede por títulos. E cuidar bem do dinheiro em nada compromete brilhar nas competições. Até agora, a atual direção do Flamengo, indo para o fim do segundo mandato, em seis anos de poder, conquistou apenas cinco taças. Já fracassos em mata-mata e que determinaram eliminações da Libertadores, até agora, são 17.

Maurício Barbieri é o 13º treinador do time. Média de sobrevivência de cinco meses e meio, 31 jogos até o descarte, muitos deles sem o menor cuidado ético. Desde 2013 foram quatro diretores-executivos. Já pela vice-presidência de futebol passaram cinco nomes, sendo que Bandeira chegou a acumular o cargo após a prisão de Flávio Godinho, num desdobramento da Lava Jato. Esses dirigentes (alguns filiados a partidos, numa fórmula do uso do futebol para alavancar carreira política) participaram das contratações do clube. Não há nada de objetivo que comprometa a lisura dessas negociações, mas, sempre que surgem polêmicas, são contornadas nos conchavos políticos entre os grupos que compõem o Conselho de Administração.

Os  atletas contratados chegam a quase 60. Alguns, por valores exorbitantes. E sem retorno de produtividade. A essa altura talvez só haja uma ou duas unanimidades na preferência do torcedor. Zico e Júnior, da geração de ouro, vivem repetindo que o elenco atual é acomodado, sem atitude, não sabe o que é vestir a camisa rubro-negra, não tem o espírito, não tem o DNA do time da massa.

Voltando à questão financeira, vendem jovens talentos, essenciais para o engajamento da torcida e futuro do time, optando por contratações caríssimas de atletas em evidente curva descendente na carreira. Pergunte a um torcedor que nome vai estampar no uniforme que está comprando. Não há ídolo. Por falar em torcida, o time, que já chegou a impressionantes 100 mil sócios-torcedores, é também o que teve a maior queda, em torno de 20%, pela opção constante de levar o time para jogar fora do Rio.

No capítulo estádio, outro desempenho catastrófico. Sem condições de ter uma arena própria, num negócio “esperto”, que prejudicava o Botafogo, investiu algo como R$ 15 milhões para transformar o estádio da Portuguesa, na Ilha do Governador, na sua Ilha do Urubu. Em fevereiro, uma chuva fez desabar dois postes de iluminação e não há previsão para a recuperação da arena. Em setembro de 2017, a diretoria assinou proposta de preferência de compra de um terreno em Manguinhos no valor de R$ 157 milhões, pertencente a um grupo em recuperação judicial. Uma área quase do tamanho do complexo do Maracanã. Como sempre, feito anunciado de forma espetacular. Só em seguida descobriram que estava prevista a construção de um viaduto de 2,5km bem em frente, o que inviabiliza o projeto.

Antes, em maio, o Flamengo assinou com o prefeito Crivella um protocolo de intenção para um estádio na Gávea. O milagre ainda não saiu do papel. Mas o pior da gestão de Bandeira é que, associado ao amadorismo e incompetência na gestão do futebol, suas ações são impregnadas de uma arrogância que contamina de otimismo a torcida e, pior, a imprensa, que deveria sempre ser crítica. Cunhou a expressão “cheirinho” de conquistas, que virou motivo de chacota das torcidas adversárias. Agora, mesmo, o time se classificou com desempenhos medíocres para a efetivamente dura etapa da Libertadores, e ele afirma que está “mirando lá no Real Madrid”.

A área de Planejamento comemora seguir o padrão do Bayern de Munique. O time, muito mais pela fraqueza dos adversários do que por seus próprios méritos, abriu uma rara frente no Brasileirão, e já há uma euforia histérica nas mídias. Só que a competição não chegou a 1/3; vem aí o recesso para a Copa e a previsão é que o elenco volte em piores condições.

A grande imprensa vai comprando o discurso oficial até que o Ministério Público, tiroteios que apavoram a cidade ou caminhoneiros que param o país mostrem que a realidade não é parecida com a que foi impressa. Mesmo no esporte, vale a máxima atribuída a George Orwell: “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade”. Também a imprensa esportiva não deveria entrar no oba-oba chapa-branca e voltar a cumprir seu dever de mostrar ao torcedor a realidade de uma gestão que cumpre aparentemente sua obrigação na situação fiscal. No entanto está longe de deixar como legado um modelo profissional e vitorioso no que é a alma do negócio: o futebol. Que só pode ser medido por resultados, não em planilhas, mas nos gramados. Que se transformam em títulos, não bancários, mas de campeão.

Não é só o Flamengo, precisamos conversar sobre o nosso futebol. Às vésperas de uma Copa do Mundo, que disputaremos com um time em que a grande estrela na publicidade é o técnico.

* Jornalista