Hildegard Angel

Dia da Mulher, ser e crescer mulher cercada de mulheres 

Jornal do Brasil
Hildegard Angel

Cresci e vivi em ambiente cercado de mulheres. Éramos três contra um, meu irmão, em casa. Já que meu pai vinha apenas uma vez por mês, por força de sua atividade viajante. Depois, com a separação, vinha ainda menos.

As amigas de mamãe enchiam a casa de histórias de Minas, causos de JK e de pão de queijo fresquinho, que devia ser só de polvilho azedo. Era pura alegria. Havia uma amiga, Maria Léa, que tocava violão e cantava “o caso do Tatu Bola, filho do Tatu Bolinha”, e eu me enroscava como tatu bolinha em suas pernas, enlevada naquela curtição. Maria Léa tinha estado na Rússia, e se dizia comunista, e elas morriam de rir daquela pretensão. Tinha a Elza Queiroga Caldeira Brant, prima da tia da minha mãe, Ordália Netto, depois Ordália Medaglia, maior amiga de dona Sarah, em cuja cobertura da rua Joaquim Nabuco Juscelino gostava de ouvir as serenatas de Silvio Caldas. E disso também eu me lembro.

      

No piano do Palácio das Laranjeiras, dona Sarah Kubitscheck com suas amigas, as amigas de minha mãe. A da ponta esquerda é minha tia, Ordália Netto, ao lado de sua fi lha, Lélia Caldeira Brant, ao lado dela, Odília Motta, a primeira namorada em Diamantina, de quem JK teve o pedido da mão negado. Na extrema direita, minha prima Vanessa, fi lha de Ordália, musa dos poetas mineiros, Murilo Rubião, Sérvulo Tavares e outros. Fortes mulheres. As mulheres de Minas ajudaram muito na eleição de Juscelino, com os comitês femininos de dona Sarah, e depois da eleição passaram a atuar nas Pioneiras Sociais, obra social de costura da primeira-dama. 

Tinha a Odília Motta, olhinhos azuis cristalinos, clarinha e sardenta, e para mim, menina, ela era uma velhinha, pois tinha rugas. Mas não devia ser tanto assim. Odília havia sido a namorada do jovem médico Juscelino em Diamantina. Ele pediu sua mão em casamento, mas o pai recusou, alegando que o rapaz era “borboleta”. Tradução: namorador. Ter sido o primeiro amor oficial de JK conferiu a Odília um carisma especial. E também um emprego como caixa na Caixa Econômica. Aliás, elas eram todas caixas na Caixa Econômica. Assim Juscelino contemplava seu fã clube feminino. 

Com minha mãe, posando com ela e para ela, com sua coleção de estampas com frutos brasileiros, Yes, nós temos bananas! E manga, e mamão... 

Amigas da mamãe, tinha a Estherzinha, grande, grande amiga mesmo, casada com o Lucas Lopes, ministro da Fazenda. E tinha a Nadir Martins, casada com o Cristiano Martins, secretário do presidente. A Amelinha. A Mimi (Conceição) Bueno Brandão, sobrinha de Sarah, casada com o procurador Garcia Bueno Brandão, filho de governador de Minas, que eram muito próximos... 

A Terezinha Fernandes era um personagem meio mitológico, com o apelido Terezinha Furacão. Ouvia falar dela aqui e ali, e uma vez ela foi lá em casa com o grupo das amigas, e eu achei que o Furacão era por causa da cabeleira bonita, cheia, vermelha. Mas depois, quando suas duas sobrinhas vieram de Minas passar férias no Rio e iam brincar conosco, elas explicaram que o Furacão era porque a tia guiava um conversível, em Belo Horizonte, e passava feito um furacão. Acreditei. 

Por um tempo, Terezinha foi caixa sem ir à Caixa. Mas quando houve uma denúncia de que as “caixas de JK só marcavam ponto”, trabalhar passou a ser obrigatório, e ela passou a cumprir o horário e a ser funcionária exemplar. Terezinha realmente passou feito um furacão na vida do Sebastião Paes de Almeida, mas não naquela época, bem depois, quando tiveram longo romance... 

Outra que provocava fortes pés de vento amorosos, e que era muito comentada nas conversas, era a Ana Lúcia Valadares, Ana Lúcia Santa Rita de solteira. Verdadeiro ciclone. E era linda, inteligente, bem lançada. Todos os dotes. Também teve emprego na Caixa. 

Outras mulheres que pontuaram minha vida foram as clientes de mamãe. Eu sempre peruei, desde pequenina, em volta das provas diante do espelho. Escutava tudo, registrava tudo. Entre as mais agradáveis estavam Lúcia Lima Pádua, Cristina Bebiano, Edith Pinheiro Guimarães, América Chinaglia e suas filhas, a condessa Pereira Carneiro. Tudo lhes ficava bem. Satisfeitas sempre. As mais exigentes, Leda Collor de Mello, mulher do Arnon, mãe do Collor, e Baby Borghi, mulher do Hugo Borghi. Iam às minúcias. Vestiam a roupa pronta, tiravam uma reta no espelho, e diziam, “Zuzu, aperta um milimetrozinho aqui”. E lá voltava a roupa para a oficina. 

As costureiras eram uma festa. Eu ficava catando alfinete, batendo papo, ouvindo histórias de suas cidades, ouvindo as músicas de seus rádios, “Ó, Cupido, vê se me deixa em paz”, minhas grandes companheiras.  Edinéa me deu o filho, Rogério, pra batizar, e até hoje somos amizade cultivada. 

E tinham as minhas tias. Na casa de vovó Chiquinha, eram muitas. Tia Virgínia, tia Eudóxia, tia Leopoldina, tia Lúcia, tia Helena. E tia Nazareth, quando vinha de Belo Horizonte. Quando íamos visitá-las, vestíamos casacos de ban-lon, pois a temperatura baixava bastante, de Ipanema para o Jardim Botânico. Eu já encontrava vovó no fogão, assando as torradinhas fininhas de que gostava.

Minhas tias eram intelectuais. Escreviam, editavam revistas, publicavam livros, tocavam flauta, faziam teatro, cinema, elaboravam métodos de ensino, quer para teatro, para crianças excepcionais ou até para yoga. Tudo o que faziam era bem feito e com profundidade. Mas eram modestas. Nunca colocaram a projeção como prioridade. Assim, o método de tia Dina é aplicado na Europa sem saberem que se trata de obra dela. Os bonecos mamulengos criados por tia Virgínia foram copiados e até hoje dão prêmios a terceiros. Nunca foi dado a ela, efetivamente, o crédito por editar os Cadernos de Teatro do Tablado, de quem foi uma das fundadoras com Maria Clara Machado, Edelvira Fernandes, Martha Rosman, Edir, Aracy e outras abnegadas. Assim como as obras sobre yoga de tia Eudoxia não lhe são creditadas. 

Por que isso? Qual motivo de tanta modéstia, humildade, das tias? Talvez porque tenham nascido mulheres, numa Belo Horizonte da segunda década do século 20, em que já destoavam de sua geração por serem todas mulheres de carreira, mulheres graduadas. Porém, talvez fosse desejar demais, para elas, se destacarem num universo masculino. 

A casa de minha avó não era uma casa feliz, havia uma frustração, um luto no ar. Mulheres brilhantes isoladas em seus quartos, mulheres solteiras, algumas ainda com traços da decantada beleza de sua juventude. Mulheres que produziram muito e pouco se realizaram. Lembrava-me a Casa de Bernarda Alba, de Lorca. 

No último quarto, o quarto modesto dos fundos, ficava meu avô, Pedro, refém de tantas mulheres fortes. Dedicado à leitura, traduzindo Proust, riscando e fazendo anotações em seu missal, dando água e alpiste aos seus passarinhos. 

Zuzu, minha mãe, foi um ponto fora da curva entre as filhas de vovó Chiquinha.  Aquela que se libertou da gaiola para o mundo...

Errata, em tempo

A pressa me fez comer três palavrinhas importantes na nota da abertura de ontem.

Onde está: “Vamos lembrar da triste passagem da derrama de mais de dois mil passaportes chineses e coreanos, por volta dessa mesma época, sob a inspiração do deputado Roberto Cardoso Alves, o Robertão, e do delegado Romeu Tuma, canal pelo qual ingressou no país a muito mal vinda Máfi a Chinesa”.

Leia-se, de forma correta: “Vamos lembrar da triste passagem da derrama de mais de dois mil vistos brasileiros, em passaportes chineses e coreanos, por volta dessa mesma época, sob a inspiração do deputado Roberto Cardoso Alves, o Robertão, e do delegado Romeu Tuma, canal pelo qual ingressou no país a muito mal vinda Máfia Chinesa”.