Borbulhantes

Uma voltinha no jardim...

Jornal do Brasil
Borbulhantes
Hildegard Angel

O trabalho de Andréa Magalhães Lins reflete seu mundo encantador. Sua mostra “Eclosão do Eu” reúne 20 obras feitas à mão e emolduradas, técnicas de colagem de papel, algumas em papel sobre tela. E o protagonismo é da mulher com sua feminilidade, sob uma ótica que propõe questões além da simples biologia. O vernissage será dia 16, no Vogue Square. 

“Passeio no jardim”, abaixo, é uma das obras mais representativas, inspirando a mulher liberta e sua contemplação da natureza. 

Parte da renda com as colagens vai para a ONG Casa Arte Vida.

“Passeio no jardim” é uma das obras mais representativas

Tempo fechado na Câmara 

O clima, que já andava tenso na Câmara dos Vereadores desde a morte de Marielle Franco, piorou muito depois que o vereador Marcello Siciliano foi apresentado como o principal suspeito de ser o mandante do crime. As sessões foram suspensas, já que os demais vereadores, tensos e apreensivos, querem evitar qualquer contato com o acusado. Afinal, Siciliano rima com miliciano. Com medo de circular pelos corredores, assessores e funcionários têm ficado trancados dentro dos gabinetes. Até na hora de ir ao banheiro, preferem ir em grupo. Segundo eles, “tem muita gente mau encarada circulando aqui pela Câmara”. Alguns estão pedindo licença médica, aguardando que a polícia se posicione claramente sobre os responsáveis pela morte da vereadora. Caso sejam confirmadas as informações de que a morte de Marielle foi por obra de um colega de parlamento, acredita-se que isso provocará forte reflexo nas eleições de outubro.

Além do Arco Íris 

Para levantar o astral da Câmara, o vereador David Miranda, do Psol, vai promover grande festa para a comunidade gay e simpatizantes na próxima quinta-feira, 17 de maio. Nesse dia é comemorado em todo o mundo o Dia Internacional Contra a Homofobia. É que foi num 17 de maio que a Organização Mundial de Saúde aboliu a homossexualidade da lista de doenças, declarando que era apenas uma expressão saudável da sexualidade humana. Por isso, na celebração da data, a Câmara desfraldará uma grande bandeira do arco-íris. Durante o evento, a partir das 19 horas, várias personalidades do mundo gay serão homenageados: Jane di Castro, Aguinaldo Silva, o imortal Antonio Cícero, Ney Matogrosso. Na ocasião será entregue moção a Monica Benício, companheira de Marielle Franco. Após a solenidade um DJ agitará o salão nobre tocando grandes sucessos de Madonna, pra todo mundo dançar. Afinal, é melhor ser alegre que ser triste...

A estrela sobe! 

David Miranda foi eleito, em 2016, o primeiro vereador LGBT da Câmara do Rio. O menino pobre do Jacarezinho, que perdeu a mãe aos cinco anos e nunca conheceu o pai, sempre buscou o seu lugar ao sol. Articulado e inteligente, tem feito um mandato combativo e atuante, tanto na área social, quanto no universo LGBT. É casado há 11 anos com o jornalista norte-americano Glenn Greenwald, prêmio Pulitzer, ex-correspondente do Th e Guardian no Brasil. O sucesso de Miranda como vereador levou seu partido a convocá-lo para concorrer a uma vaga de Deputado Federal nas eleições de 2018.

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Tracie & Tasha 

Transformadoras, renovadoras, influenciadoras digitais, inovadoras no discurso e na moda, articuladas, revolucionárias da autoestima do gueto, do preto, elas são as Marielles do rap

"As meninas pretas nunca são as mais bonitas da escola"

Filhas de nigeriano com brasileira, as gêmeas Okereke, Tracie e Tasha, já estão no Rio de Janeiro para a primeira edição da Fumart (Festival Urbano de Música e Arte), que acontece hoje no bairro de Santo Cristo. A dupla é uma das 20 atrações musicais que irão representar o Hip Hop nacional no evento. Além de DJ’s e produtoras culturais, as gêmeas chegam à cena musical para representar o Jardim Peri, periferia de São Paulo, dos pés à cabeça. Cansadas do ditame das revistas de moda, são elas que customizam suas próprias roupas, enfatizando o glamour da cultura negra através de seu blog “Expensive Shitt”, e de suas próprias redes sociais.

"A gente é um movimento. Chama-se Expensive Shitt (com dois Ts). Nosso foco é a autoestima da mulher jovem periférica. A gente faz editorial de moda, roupa de brechó até 20 reais, conta história da arte, da música, a gente faz a nossa quebrada, a gente não tem um seguimento, faz tudo aquilo que gostaria que alguém fizesse. Somos ativistas da cultura negra. 

Nossa moda é bem natural.  A gente sempre modificou as coisas pra se vestir, era um desafio todos os dias, tinha que explorar o potencial das peças. A gente sempre foi de periferia, não tinha o mínimo mesmo, nunca tinha nada da moda, passava um ano com uma calça, que ganhava das amigas da mamãe, gente mais velha, minha mãe ia fazer limpeza nas casas das pessoas e ganhava roupas, a gente modificava as roupas e fazia estampas na mão, com caneta. Nossa moda a gente foca em meninas como a gente era, que não tinha dinheiro nem pro básico”.

A gente quer montar um império, mulher e homem preto que fotografa, tatua, a gente quer fazer tudo. Arte é aquilo que mantém o mundo, aquele buraquinho de panela de pressão que faz sair o ar. A gente tá lá, você tem pra trocar, a gente tem também. É assim que a gente favela tudo. 

A gente sofreu muito na adolescência e cada vez mais percebe a importância de ter orgulho de quem você é. Tem que ter autoestima, tem que ter orgulho, e pra ter orgulho tem que saber de onde veio. 

A parte visual para a mulher preta é muito importante. A gente vem a vida inteira sendo trocada, a mulher preta nunca é mais bonitinha da escola, e nós não nos sentimos pertencentes de algo. Antes não tinha maquiagem para gente, não tinha roupa pra gente, não tinha produto de cabelo, quase nada pra mulher preta, a gente não alcançava a estética que a gente procurava. A gente está correndo atrás da diáspora, de saber quem a gente é, mas essa questão de se ver representada visualmente é muito importante. 

A gente que é preto tem autoestima tão baixa, a história preta está sendo admitida agora, descoberta agora. Pô, as referências são todas brancas. Tipo, filosofi a começa pela Grécia. Então, preto não tem? Na Etiópia tinha muita coisa. O que mostram pra você é que você não está na história. Não fez nenhum feito. Não inventou nada. Não tem mérito. Você infestou um país, você é uma infestação. A menina mais bonita é a branca e você nunca vai ser. O cabelo mais bonito vai ser sempre o dela. O que a gente está fazendo é quebrando essa dinâmica, e isso é bem importante pra gente."

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EM QUEDA, ano para ano, o número de casamentos de pessoas do mesmo sexo. Legalizados pelo Conselho Nacional de Justiça há cinco anos, desde então houve cerca de 20 mil uniões homoafetivas no Brasil, e elas aumentavam ano a ano. Até a primeira baixa, em 2016, de -4,6% em relação a 2015, isto é, 5.354 registros ante 5.614. Dados do IBGE. É a crise...

Com João Francisco Werneck