Coisas da Política

Falar de Bolsonaro

Jornal do Brasil
Coisas da Política
Tereza Cruvinel

Por longo tempo o chamado  “centro”,   composto pelos partidos vitoriosos no impeachment,  desdenhou a  candidatura de Jair Bolsonaro: Murcharia logo, não iria longe sem estrutura partidária e sem tempo de televisão.  E assim o candidato da extrema direita cresceu em paz, como uma flor venenosa que poderia ter utilidade.  Lula seria impedido e a esquerda não teria outro candidato viável. O governo de Temer daria certo e um candidato de direita, possivelmente um tucano,   disputaria o segundo turno com Bolsonaro. 

Derrotada, a esquerda seria até forçada ao voto útil para evitar o mal maior. Bolsonaro, neste cálculo, funcionaria como  uma espécie de Marine Le Pen, que forçou o voto útil da esquerda francesa no conservador Macron, em 2017.  

Mas nem tudo deu certo. Lula foi de fato preso e deve ser impedido mas o governo de Temer afundou na rejeição e não produziu a prometida recuperação da economia.  O candidato tucano natural,  Aécio Neves,  foi carbonizado no caso JBS, Alckmin (ainda) não decolou e outros candidatos surgiram na raia do centro.   Bolsonaro segue em segundo lugar e alcança 18,3% com Lula fora da pesquisa.  Se a eleição fosse hoje, com Lula excluído, ele iria ao segundo turno contra Marina Silva ou Ciro Gomes. A centro-direita é que ficaria entre apoiá-lo ou votar útil na centro-esquerda. 

Esta possibilidade é claramente exorcizada no manifesto em defesa da unidade do centro, articulado pelo deputado tucano Marcus Pestana e pelo senador Cristóvam Buarque, do PPS: “À direita, esboça-se um inédito  movimento de claras inspirações antidemocráticas. À esquerda, um visão anacrônica alimenta utopias regressivas de um socialismo autoritário”. 

É tempo, então, de falar mais de Bolsonaro, saber o que ele pensa e o que faria se fosse eleito.  Reuni algumas das frases que ele proferiu nos últimos anos, inspirada na recente compilação que o “The New York Times” fez das “459 pessoas, lugares e coisas insultadas por Trump no Twitter”.

“O erro da ditadura foi torturar e não matar.” 

“Não te estupro porque você não merece.” (À deputada Maria do Rosário  (PT-RS). 

“Mulher deve ganhar salário menor porque engravida” . 

“Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ulstra, o pavor de Dilma Rousseff ”. (Ao votar pelo impeachment, invocando as torturas que ela sofreu). 

“Quem procura osso é cachorro”. (Sobre a busca pelos corpos dos desaparecidos na Guerrilha do Araguaia). 

“Pinochet devia ter matado mais gente.”

 “A PM devia ter matado 1.000 e não 111 presos.” (Sobre o massacre do Carandiru)

 “Não vou combater nem discriminar mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater.” (Sobre foto do ex-presidente FHC com a bandeira LGBT). 

“O mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem para procriador ele serve mais.”  (Sobre comunidades quilombolas).  

 “Deveriam ter sido fuzilados uns 30 mil corruptos, a começar pelo presidente Fernando Henrique Cardoso”. (Sobre o golpe militar de 1964).

 “Eu não entraria num avião pilotado por um cotista. Nem aceitaria ser operado por um médico cotista." 

“Foram quatro homens. Na quinta eu dei uma fraquejada e veio mulher. (Sobre seus filhos).  

“Você é uma idiota. Você é uma analfabeta. Está censurada!”. (Ao ser entrevistado pela repórter Manuela Borges, da Rede TV). 

“Gastaram muito chumbo com o Lamarca. Ele devia ter sido morto a coronhadas.”

 “O objetivo é fazer o cara abrir a boca. O cara tem que ser arrebentado para abrir o bico.”  (Em defesa da tortura).

 “Competência? Se quiser botar uma prostituta no meu gabinete, eu boto. Se quiser botar a minha mãe, eu boto. É problema meu.” 

“Já vai tarde.” (Sobre a morte de Luís Eduardo Magalhães). 

“Não me venham  falar em ditadura militar . Só desapareceram 282. A maioria marginais, assaltantes de bancos, sequestradores”. 

“Pelo voto não vamos mudar nada neste  país. Só com guerra civil.” 

A lista é longa, a coluna só comporta uma amostra.