Coisas da Política

Esperando alguma luz

Jornal do Brasil
Coisas da Política
Tereza Cruvinel

A incerteza acompanha a eleição deste ano desde o início, mas ela se tornou aguda neste momento crucial para a definição das alianças. Ciro Gomes, Geraldo Alckmin e o PT travam uma briga de foice no escuro em busca dos apoios do PSB e do chamado Centrão. No escuro porque não dispõem de pesquisas novas indicando a posição atual de cada candidato. A última do Datafolha saiu em 10 de junho e a última IBOPE/CNI, no dia 28. 

Fatos posteriores podem ter afetado todos os candidatos mas Lula, suspeitam os partidos cortejados, pode ter ganhado impulso com a chanchada do solta-não-solta de domingo, reforçando a narrativa da perseguição política. Assim pensando, o PSB freou o movimento em direção a Ciro. E a favor de Lula, agora pode pesar também sua absolvição ontem, com outros réus, da acusação de obstrução da justiça pelo juiz federal Ricardo Leite, de Brasília.

Lula e outras seis pessoas foram acusadas de conspirar contra a Lava Jato, tentando comprar o silêncio do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró para que ele não firmasse acordo de delação premiada. O juiz apontou a inexistência de provas e, diferentemente do que costuma fazer seu colega Sergio Moro, recusou- -se a condená-los com base unicamente em delação. O delator foi o filho de Cerveró, Bernardo, que gravou conversa própria com o ex-senador Delcídio do Amaral, em que discutiam providências para libertar o pai. Delcídio apontava Lula como principal interessado. Nada se provou, entretanto, sobre a participação de Lula e dos demais citados, como o banqueiro André Esteves e o empresário José Carlos Bunlai. O juiz alegou “deficiência probatória para sustentar qualquer juízo penal reprovável”. 

A decisão do juiz Leite estabelece um contraponto com a atuação de Moro, que condenou Lula, no caso do tríplex, com base na delação do ex-presidente da OAS Léo Pinheiro, e na ausência de provas de que o ex-presidente tenha tido a propriedade (a escritura) ou a posse (uso efetivo) do imóvel. Um contraste que se soma à conduta de Moro no domingo quando, não tendo mais papel no processo, e estando de férias, mandou a Polícia Federal descumprir a ordem de soltura.

O efeito eleitoral independe da equação jurídica. Para o eleitor não importa se o desembargador Favretto podia ou não conceder habeas corpus ao preso. O que ele deve ter percebido foi a jogada combinada entre Moro, a PF e o TRF-4 para frustrar a libertação.

Se a ideia da perseguição ganhou força no domingo e convenceu mais eleitores a votar em Lula, ou em seu candidato, a mesma lógica pode ser aplicada à absolvição de ontem. E ainda à decisão da juíza responsável pela execução de sua pena, Carolina Lebbos, que o proibiu de dar entrevistas, gravar vídeos e ir à convenção partidária, antecipando-se ao TSE ao dizer que ele é inelegível. Todo mundo sabe que até Fernandinho Beira-Mar e Marcinho VP já concederam entrevistas na prisão, autorizados pela Justiça. Tudo isso pode estar tonificando a ideia da perseguição a Lula para que não possa concorrer. 

Mas como sem pesquisa não é possível aferir este eventual movimento de votos, os partidos vão empurrando suas decisões, à espera de alguma luz. DEM, PP, SD e PRB hesitam entre Ciro e Alckmin. Querem apoiar o que tiver mais chances de barrar o candidato do PT. O PSB não sabe se apoia Ciro, Lula/ PT ou se fica solteiro na disputa. Noiva da vez é o PR de Valdemar Costa Neto, emblema da falta de nitidez ideológica dos partidos brasileiros. Pode ir de Bolsonaro, pode acompanhar o Centrão, pode até mesmo voltar a ser aliado do PT.

LULA NO YOUTUBE 

A decisão da juíza Lebbos, proibindo Lula de qualquer atividade como pré-candidato, foi respondida pelo PT com o lançamento do canal dele no Youtube. Lá estão disponíveis entrevistas e vídeos, inclusive os inéditos que ele gravou pouco antes de ser preso.