Coisas da Política

Crivella e o laicismo

Jornal do Brasil
Coisas da Política
Tereza Cruvinel

O laicismo não é a pregação de um Estado ateu. A confusão pode existir no senso comum mas governantes sabem muito bem o que ele significa. A separação entre o Estado, a Igreja e os grupos religiosos, bem como a neutralidade do Estado em questões religiosas devem existir, inclusive, para garantir o respeito à liberdade e à diversidade de credos. Quando o juiz Rafael Cavalcanti Cruz manda que o prefeito Marcelo Crivella, sob pena de afastamento do cargo, pare de usar a máquina da prefeitura para favorecer pessoas de sua igreja, apenas faz valer um princípio constitucional. Bom seria que o episódio permitisse a discussão de outras situações em que a religião invade a esfera pública. Por exemplo, na radiodifusão.

As regalias oferecidas pelo prefeito aos irmãos de fé caíram na rede. “Se não tem vaga no SUS nem remédio na farmácia, fala com Márcia”, diz o samba que viralizou, juntamente com outros memes sobre o assunto. Em todo gabinete de poder no Brasil tem uma Márcia para atender à clientela: indicados do partido, do grupo, dos amigos do governante. Crivella aplicou a velha prática do clientelismo a seu grupo religioso, violando o artigo 19 da Constituição. Ele proíbe os entes públicos de “estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança”. 

Mas a União também viola o princípio do Estado laico quando concede tantos canais de rádio e televisão a grupos religiosos, que já controlam nove dos 50 canais de maior audiência no país. Entre canais próprios e horários alugados, o “televangelismo” transmite 140 horas semanais na TV brasileira. A Rede TV vende 46 horas de sua grade para igrejas. A Record, da Igreja Universal de Crivella, transmite 32 horas e a Band 31 horas. Além de violar o laicismo, estas concessões distorcem a finalidade pública da radiodifusão.

TOFFOLI NO ALVO 

Faltam ainda dois meses para sua posse na presidência do STF, mas o ministro Dias Toffoli deve se preparar para a volta dos questionamentos sobre suas relações pretéritas com o PT, intimidando-o para que não paute as ADCs sobre prisões após condenação em segunda instância, que poderiam beneficiar Lula. Um sinal disso, a notícia de que ele pensaria no ex-ministro Franklin Martins como chefe da comunicação da corte em sua gestão. Zero de fundamento, disse Franklin a amigos. Mas a cogitação é nociva a Toffoli, pela notória relação entre o jornalista e o ex-presidente. 

BOLSONARO NA CABEÇA 

Foi-se o tempo em que o eleitorado da capital federal votava maciçamente na esquerda, como já fez em favor de Lula e Marina Silva. Levantamento do Instituto Paraná Pesquisas no DF, feito na semana passada, apurou que Jair Bolsonaro lidera com 25,5. No cenário com Lula, que alcança 21%, ele fica com 24,3%. Marina, que ganhou na capital em 2014, agora obteve 10,6%. Novidade foi Álvaro Dias (5,4%) à frente de Geraldo Alckmin (3,7%).

LULA DOMINANTE 

A guerrilha jurídica do dia 8 passado para impedir a libertação de Lula catapultou sua presença nas redes sociais e ele tem se mantido no topo. No levantamento da consultoria Aja Solutions ele se manteve em primeiro lugar no ranking de relevância e visibilidade no Twitter de 6 a 13 de julho. Lula segurou uma fatia de 36% de relevância e mais de três quartos das hashtags foram de apoio a ele. A fatia de relevância de Bolsonaro despencou de 25% para 14%, embora ele tenha se mantido em segundo lugar, seguido de Guilherme Boulos, do PSOL, com 14% do total.

No dia 13 observou-se uma perda acentuada de seguidores por alguns candidatos. Álvaro Dias deixou de ser seguido por 56,6 mil, Marina por 37,8 mil e Alckmin por 9,4 mil. Segundo Aja Solutions, isso pode ter acontecido porque Twitter, Facebook e Youtube começaram a erradicar perfis inativos e robôs de suas plataformas.