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Coisas da Política

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Tereza Cruvinel

O risco Bolsonaro

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A representação criminal apresentada ontem ao STF pelo PT, contra o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, talvez receba menor atenção que o pedido de liminar com que tentará, em última instância, garantir a candidatura de Lula, antes de proceder à sua inevitável substituição por Fernando Haddad. Já a medida contra Bolsonaro pode ser benéfica a todo o processo eleitoral, ao exigir da Justiça alguma providência contra os desafios constantes do candidato do PSL ao regime democrático.

Ele vem tentando deixar para trás declarações que lhe fizeram a fama, como a defesa da tortura e da ditadura, do racismo e do machismo, mas como é da sua natureza, acaba se repetindo. No sábado, fazendo o gesto de fuzilar, disse num discurso: “Vamos fuzilar a petralhada toda aqui do Acre. Vamos botar esses picaretas pra correr do Acre. Já que eles gostam tanto da Venezuela, essa turma tem que ir pra lá. Só que lá não tem nem mortadela galera, vão ter que comer é capim mesmo”.

O PT o acusa de cometer injúria eleitoral e incitação ao crime. É mais do que isso. O que ele faz é externar seu profundo antagonismo com o regime democrático. Com 20% de preferência nas pesquisas, em média, o Brasil corre o risco real de colocar na Presidência um político que não vê problemas em pregar o fuzilamento de adversários políticos, um traço dos regimes totalitários. Assim como o artigo 17 da Constituição veda a criação de partidos que ameacem o regime democrático, dizem os juristas Daniel Sarmento e João Gabriel Pontes, por analogia deviam ser proibidas candidaturas que carregam o mesmo risco. O que pensará o STF?

Incêndio como metáfora

A destruição do Museu Nacional é mesmo razão para luto. Como numa metáfora do tempo regressivo que vivemos, agora são cinzas uma parte de nossa memória como Nação, afora peças importantes da própria história da humanidade e fósseis que falavam da evolução das espécies. Ao fogo talvez só tenham resistido as pedras que vieram do espaço: o Bendegó e o Santa Luzia, que caiu aqui perto de Brasília e me fez voltar ao museu recentemente.

Na esteira do luto, muito cinismo. O presidente Temer anunciou um plano de reconstrução, com a ajuda de bancos privados e públicos, mas não há como resgatar os itens perdidos. O Estado devia se desculpar pelo descuido. “Pelo menos em parte, a culpa é dos autores da PEC do teto do gasto. O MPF, tão ativo, caçará os culpados?”, pergunta o ex-chanceler Celso Amorim. Os bancos agora prometem ajudar, mas não destinam uma ínfima fração de seus vultosos lucros à preservação do patrimônio cultural.

Como boa síntese da perda, reproduzo o texto do servidor do museu Rui da Cruz Jr., publicado pelo site Nocaute.

“Queimamos o quinto maior acervo do mundo. Queimamos o fóssil de 12 mil anos de Luzia, descoberta que refez todas as pesquisas sobre ocupação das Américas. Queimamos murais de Pompeia e o sarcófago de Sha Amum Em Su, um dos únicos no mundo que nunca foram abertos. Queimamos o acervo de botânica Bertha Lutz e o maior dinossauro brasileiro já montado, com peças quase todas originais. Queimamos o Angaturama Limai, maior carnívoro brasileiro, e alguns fósseis de plantas já extintas. Queimamos o maior acervo de meteoritos da América Latina e o trono do rei Adandozan, do reino africano de Daomé, datado do século XVIII. Queimamos o prédio onde foi assinada a independência do Brasil. Queimamos duas bibliotecas e a carreira de 90 pesquisadores e outros técnicos. O que arde no Museu é uma parte da história antropológica da humanidade. Se eles pudessem nos queimavam junto com as paredes do museu, nas salas onde D. Pedro II reinou, nos corredores por onde transitaram os feitores da primeira constituição da República. Se eles pudessem, nos queimavam. É imensurável o que perdemos. Estou engolindo o choro.”

“Eles” não têm um só nome. Eles são a incúria do Estado e a indiferença da elite econômica, onde não há mecenas.



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