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Renato Mauricio Prado

Nem com São Judas Tadeu...

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Os últimos dias no Céu foram de intensa atividade. Fazia jogging na pista de nuvens, musculação na academia de Pedro e até natação nos mares paradisíacos. Espantado, Tomé chegou a comentar, incrédulo:

- Se não estivesse vendo, não acreditava!
- Pode crer, preciso estar em grande forma para quarta-feira!

O companheiro estranhou, pois na quarta-feira não havia jogo programado para o time dos apóstolos – líder da Liga Local, muitos dizem por jogar sempre com doze jogadores, ao invés de onze. Intriga da oposição. Há séculos, Iscariotes fora banido da equipe...

- Fala aí, Tadeu, vai fazer amistoso no campeonato do purgatório?
- Pior que isso, Tomé. O compromisso que tenho lá embaixo é infernal.
- Não vai se machucar, hein? Semana que vem, vamos encarar os querubins. E os garotos estão “voando” – advertiu Pedro, o goleiro e capitão dos apóstolos, na despedida.

A advertência tinha razão de ser. Ao chegar ao Mineirão, São Judas Tadeu percebeu o clima tenso. E, sentindo um frio na espinha, lamentou não ter aceitado o oferecimento dos “parças” Tiago e João, que formavam a zaga central dos “Doze Apóstolos F.C” e se dispuseram a acompanhá-lo.
- O padroeiro sou eu. Agradeço, mas tenho que ir sozinho! – dissera.

Já no vestiário, ouviu a preleção e tomou conhecimento da escalação, que tinha uma novidade: Vitinho no comando de ataque e Marlos Moreno, na esquerda. Gostou, mas sussurrou no ouvido de Maurício Barbieri:
- Se estiver indo pros pênaltis, bota o Dourado! Só pra isso que serve!

Hora de ir pro campo, Tadeu calçou as chuteiras e subiu com o time. Sentiu falta do manto rubro-negro, mas soube que a camisa branca tinha sido uma esdrúxula exigência da Conmebol e deixou quieto. Saída de bola do Cruzeiro que, com cinco minutos, já imprensava o Flamengo.
Com dez, as ações se equilibraram um pouco e Tadeu não parava no gramado. Graças à invisibilidade, jogava livre e no primeiro chute do Mais Querido, de Marlos Moreno, tentou um sopro para levá-lo ao caminho do gol, mas a bola saiu torta, pela linha de fundo.

- Vamos, Diego, deixa de cena! – soprou ao ouvido do camisa dez, pouco depois, quando ele fez um teatrinho por ter sido atingido por Robinho.

Aos 16 minutos, a famosa avenida Rodinei começou a criar problemas. Duas jogadas perigosas pelo lado direito da defesa. E Tadeu resolveu se plantar por lá, tentando uma solução divina para um problema crônico, que só os dirigentes do centro de incompetência do Fla não vêem.
Os problemas, porém, não se limitavam às laterais. O meio-campo rubro-negro também patinava. Diego perdeu uma bola na intermediária e Barcos, livre, com o goleiro já batido só não marcou porque Tadeu desviou a bola sutilmente, sem que ninguém visse.

- Vamos lá, gente. Se tomarmos um gol, a casa cai. Acorda, Paquetá!

Com meia hora, o único rubro-negro inspirado era Everton Ribeiro. Do meio pra frente, Diego, Paquetá, Vitinho e Moreno lutavam, mas não acertavam nada. E os erros de Rodinei exasperavam o santo padroeiro:

- Pai do Céu, é incrível, mas estou com saudades do Pará!

O Flamengo, aos poucos, ficava mais com a bola e, num lançamento de Diego, Paquetá, na banheira, marcou de bicicleta. Gol anulado, apesar das tentativas de Tadeu de cegar os árbitros. Com VAR, não tem milagre...
Fim do primeiro tempo e São Judas Tadeu foi exausto pro vestiário. Sua tarefa ficava cada vez mais difícil. Até mesmo para um santo. Principalmente com os atacantes rubro-negros. Aos cinco minutos da etapa final, Réver enfiou uma bola de mais de trinta metros, que Tadeu ajudou a cair no peito do colombiano Moreno, que chutou em Bogotá.

- Isso é a reencarnação do Cafuringa! – pensou, desanimado, lembrando-se do folclórico atacante tricolor que corria feito coelho de desenho animado, driblava e coisa e tal, mas fez apenas um gol na carreira.

Repetindo outro típico lance do antigo jogador do Fluminense, pouco depois foi a vez de Rodinei disparar e sair com bola e tudo pela linha de fundo. Era Cafuringa demais pra um time e um santo só...
Ataque do Cruzeiro e Barcos, primeiro, e Thiago Neves, depois, perderam um gol incrível. A bola só não foi para o fundo da rede graças à defesa milagrosa de Diego Alves. Claro, lá estava Tadeu, trabalhando de novo. O grande milagre, de vencer por pelo menos dois a zero, porém, tomou forma aos 24 minutos, após um escanteio e um cruzamento curto de Everton Ribeiro (sempre ele). Léo Duarte marcou de cabeça e incendiou o jogo. Até Tadeu entrou na comemoração, que lhe custou a auréola. Ainda dava.
O relógio, entretanto, jogava contra e mesmo com as entradas de Dourado e Lincoln o segundo gol não saía. Quando Geuvânio entrou, o padroeiro percebeu que já batera o desespero. E aí, nem santo dá jeito.
Restou o orgulho da desclassificação com vitória. São Judas Tadeu será desfalque no clássico contra os Querubins. Lutou tanto que voltou para o Céu com distensão na virilha, torsão no tornozelo e sem auréola. Mas promete voltar para as semifinais da Copa do Brasil. Padroeiro sofre...



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