Jornal do Brasil

Inovação JB

Inovação JB

Felipe Ribbe

Você já ouviu falar em computação quântica?

Jornal do Brasil

Imagine uma máquina capaz de processar uma gigantesca quantidade de informações de forma muito mais rápida até que o mais potente dos supercomputadores existentes no mundo. Ela seria capaz, por exemplo, de descobrir novos materiais supercondutores, novas drogas revolucionárias, melhorar previsões meteorológicas, criar comunicações hiper seguras e resolver centenas de outros problemas complexos. Essa máquina, com todo esse potencial, ainda não existe, mas está cada vez mais próxima da realidade. É o computador quântico.

Para entender sobre computação quântica é preciso conhecer os princípios da mecânica quântica. E como essa não é uma tarefa simples, semana passada conversei com Ernesto Fagundes Galvão, professor da UFF e um dos maiores especialistas no assunto aqui no Brasil. A diferença básica entre um computador quântico e um clássico se dá por um fenômeno chamado superposição. Em um sistema clássico, toda informação é armazenada e processada na forma de bits, que podem ser 0 ou 1. Já sistemas quânticos conseguem ter um bit que combina propriedades, como se tivessem diversos tons de 0 e 1 ao mesmo tempo: é o quantum bit ou qubit, como é conhecido.

Fazendo uma analogia para simplificar, é como se, na computação clássica, o bit 0 fosse uma lâmpada apagada e o bit 1 uma lâmpada acesa; na computação quântica a lâmpada seria dimerizável. Essa capacidade faz com que, no caso de uma tentativa de se descobrir uma senha com vários caracteres, por exemplo, um sistema normal o faça testando uma possibilidade de cada vez – o que pode levar bastante tempo – enquanto um sistema quântico testa todas as possibilidades de uma vez só, tornando a tarefa muito mais rápida.

Porém, manter o estado de superposição é complicado, porque os qubits são sensíveis a qualquer tipo de interferência, inclusive de partículas minúsculas. Por isso, os sistemas devem ser mantidos isolados do ambiente, mas não totalmente, pois ainda é preciso acessá-los para manipulá-los e fazer os cálculos desejados. Dessa forma, os computadores quânticos atuais mantêm-se funcionando apenas por milissegundos.

Essa dificuldade tem impedido de se alcançar a chamada supremacia quântica, que é o termo usado para determinar quando o computador quântico for, de fato, capaz de exercer funções que o computador clássico não consegue. Os modelos existentes mais potentes são os processadores de 72 qubits do Google e de 50 qubits da IBM, sendo que o primeiro ainda carece de estudos que comprovem a capacidade anunciada pela empresa. Segundo Ernesto, a supremacia quântica acontece entre 70 e 100 qubits, porém é necessário que estes qubits funcionem perfeitamente, sem interferências, o que deve ser atingido em um ou dois anos.

Eu sei que provavelmente você continua um pouco confuso, afinal a mecânica quântica não é intuitiva para nós. Mas vale muito prestar atenção, pois governos e empresas gigantes estão investindo nessa tecnologia, de olho em todo o seu potencial. Além de IBM e Google, a Microsoft coloca a computação quântica junto de inteligência artificial e realidade aumentada como as três tecnologias mais importantes do futuro. Alibaba, Intel, Volkswagen, Biogen e Airbus são outros exemplos que também a estão testando. A consultoria Gartner estima que 20% das empresas da Fortune 500 terão projetos de computação quântica até 2023.

Quanto aos países, EUA, China e Canadá se destacam, impulsionados por investimentos pesados de seus governos. O Brasil está ficando para trás. Apesar de contar com profissionais de ótima qualidade e currículo, falta uma ligação entre as universidades onde são feitas as pesquisas e a iniciativa privada. Além disso, segundo Ernesto, o corte nos financiamentos do governo federal tem levado a uma “fuga de cérebros”, com vários profissionais indo embora do país em busca de oportunidades em outros locais. Triste rotina.



Recomendadas para você