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Felipe Ribbe

O ativismo político dentro das empresas de tecnologia

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Mês passado, uma série de reportagens sobre um possível retorno do Google à China colocou a companhia sob pressão. As notícias sobre o desenvolvimento de uma ferramenta de busca e um aplicativo de notícias censurados de acordo com as regras do governo local provocaram reações contrárias de grupos de direitos humanos, pedidos de explicações de senadores americanos e da mídia. Porém, o que mais chamou atenção foi a reação dos próprios funcionários. Cerca de 1.400 deles assinaram uma carta aberta cobrando mais detalhes sobre o até então secreto projeto Dragonfly, como é conhecido internamente. O ativismo dos empregados em relação aos negócios dos empregadores tem sido cada vez mais comum no setor de tecnologia. Esse caso é apenas o mais recente deles.

O Google deixou de operar na China em 2010, em protesto ao que um dos fundadores da empresa, Sergey Brin, chamou à época de “totalitarismo” do governo local. Mas após oito anos de ausência, o peso de ter deixado para trás as mais de 800 milhões de pessoas conectadas parece finalmente ter sido sentido e, aos poucos, a companhia foi ensaiando seu retorno. Abriu um centro de pesquisa em inteligência artificial, firmou parcerias com gigantes locais da tecnologia, investiu montanhas de dinheiro em startups... Hoje são cerca de 700 empregados no país e há intenção de aumentar ainda mais essa presença.

A perspectiva de ganhos financeiros não comoveu uma parte dos funcionários da empresa. Na carta aberta, os signatários exigiram mais transparência para saberem exatamente os tipos de projetos com os quais estão envolvidos e de que maneira esses poderiam ferir valores éticos individuais. A postura do Google, porém, deve ser a de prosseguir com seus planos. Apesar de não ter falado abertamente, o CEO da empresa, Sundar Pichai, é um defensor do retorno das operações ao país asiático.

Questionamentos internos por parte de funcionários não são uma novidade no Google. Em março, vazou a notícia de que a companhia estava participando do Projeto Maven, em parceria com o Departamento de Defesa do EUA, para usar inteligência artificial na análise de imagens feitas por drones em zonas de combate. O potencial uso de IA para aumentar a capacidade de armas mobilizou mais de 4 mil empregados a assinarem uma carta exigindo que a empresa se negasse a oferecer essa tecnologia para uso militar. Doze funcionários, inclusive, pediram demissão. A repercussão foi tamanha que o Google anunciou que não renovaria seu contrato com o governo americano após a expiração do mesmo, em 2019.

Outras empresas do setor passaram por situações parecidas. Na Amazon, grupos de acionistas e funcionários divulgaram cartas solicitando que a companhia deixasse de vender o Rekognition, seu software de reconhecimento facial, para forças de segurança. Na Microsoft, o protesto dos empregados foi relacionado ao contrato que a empresa tem para fornecer computação em nuvem para a agência de imigração dos EUA, que nos últimos meses foi criticada por separar crianças de seus pais na fronteira do país com o México. Na Salesforce, que presta serviços para a mesma agência de imigração, aconteceu o mesmo. Todos esses esforços, porém, não receberam suporte das empresas, que mantiveram os contratos ativos.

De qualquer forma, é interessante observar esse crescente ativismo político de colaboradores em relação às posições tomadas por aqueles que os contratam. Isso não é comum no meio empresarial, entre outros motivos, por conta do medo de demissão. Mas como o setor de tecnologia tem uma escassez grande de mão de obra qualificada e a competição para atrair e reter talentos é bastante acirrada, fica mais fácil se posicionar abertamente sobre decisões estratégicas. Em tempos em que governos utilizam cada vez mais aplicações para vigiar seus cidadãos, podemos esperar mais questionamentos de funcionários insatisfeitos com as consequências de seus trabalhos.



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