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Felipe Ribbe

Agricultura celular: que tal carne feita em laboratório?

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Atualmente, cerca de 8 bilhões de pessoas habitam o planeta. Em 2050, de acordo com a ONU, esse número chegará a 9,8 bilhões; em 2100, a 11,2 bilhões. Esse aumento considerável da população mundial e a maior renda per capita nos países em desenvolvimento farão com que a demanda por proteína animal também cresça: segundo projeções, a carne bovina terá seu consumo anual global saltando de 72 milhões de toneladas em 2009 para 87 milhões de toneladas em 2030. E isso terá um peso ambiental, afinal 18% de todos os gases poluentes gerados no mundo vêm da produção de carnes em geral.

Por conta disso, várias empresas estão testando uma nova forma de obtê-las, produzindo-as em laboratório, na chamada agricultura celular. Esse tipo de carne é conhecido como clean meat (carne limpa, em português) por, teoricamente, diminuir seu impacto ambiental, não usar antibióticos e não causar sofrimento aos animais. Estima-se que essa agricultura utilize 100 vezes menos espaço e 5,5 vezes menos água que a tradicional. De forma simplificada, funciona assim: cientistas coletam tecido de um animal e isolam células-tronco, capazes de se desenvolver por conta própria; depois, eles provêm oxigênio, sais mineiras, açúcares e proteínas, o que faz com que as células sejam “enganadas” a pensar que estão dentro de um organismo; dessa maneira, elas seguem se multiplicando e crescendo, formando músculos, gordura e tecidos. Como trata-se de tecnologia ainda em estágio inicial, os produtos não mantêm estruturas como de uma peça de picanha, por exemplo, e as primeiras aplicações são mais simples, como hambúrgueres, nuggets de frango, almôndegas e carne moída. O objetivo, no entanto, é obter estruturas cada vez mais elaboradas e parecidas com as carnes que conhecemos. Existem empresas trabalhando com carne bovina, de frango, peixes e até foie gras (fígado de pato ou ganso).

Macaque in the trees
Reprodução (Foto: JB)

O custo para produção em laboratório ainda é um problema. O primeiro hambúrguer do tipo, feito em 2013, custou US$ 330 mil. Desde então esse valor caiu, mas ainda segue alto, muito em função do soro de sangue animal, responsável pelas proteínas que “alimentam” as células. Por conta disso, as empresas têm buscado novas maneiras de diminuir a quantidade ou até substituir esse soro por algo de outra origem. Até porque, se a ideia é produzir de maneira sustentável, não utilizar sangue de animais faz sentido. Como as pesquisas têm avançado, a expectativa é que os custos caiam o suficiente para que esses produtos estejam disponíveis aos consumidores nos próximos dois a três anos, com um preço ainda alto, e, em 10 anos, consigam competir em custo com as carnes tradicionais.

Mesmo sendo um mercado com retorno no médio-longo prazo, o mesmo vem atraindo investidores de peso, como Bill Gates, Richard Branson e Sergey Brin. O maior sinal do potencial desse segmento, entretanto, é o fato de que a Tyson Foods e a Cargill, duas das maiores produtoras de carne do mundo, investem na Memphis Meat, uma das empresas mais promissoras de clean meat. Isso mostra que estão atentas às possibilidades de disrupção em seus negócios.

Nem tudo são flores, no entanto. Há questionamentos sobre falta de estudos que mostrem os efeitos do consumo desses produtos em humanos e no meio ambiente. Existe até disputa em relação ao uso da palavra carne: o estado americano de Missouri definiu por lei que somente produtos extraídos do abate de animais podem ser vendidos como tal, o que provocou reações na Justiça dos partidários pró-agricultura celular.

Por último, há talvez o fator mais complicado de ser superado: a desconfiança dos consumidores. Afinal, o termo “carne feita em laboratório” assusta, por lembrar algo artificial. Porém, se a tecnologia evoluir a ponto de conseguir reproduzir o visual, sabores, texturas e aromas das carnes tradicionais, pode se tornar importante na missão de alimentar o mundo utilizando menos recursos naturais.



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