Jornal do Brasil

Música em Pauta

Música em Pauta

Mariana Camargo

CompositorAs

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Que em muitas profissões mulheres são minoria, é realidade óbvia. Mas composição?! Pareceria ser a ocupação ideal para mulheres. É quase como bordar, uma profissão perfeita para o sexo “frágil”: combinar notas, timbres, ritmos e fazer isto tudo soar belo, interessante e prazeroso. Coisa de mulher. No entanto, quando se fala de música clássica, por exemplo, os nomes que surgem são Beethoven, Bach, Stravinsky e milhares de outrOs. Não que as compositoras não tenham sempre existido, mas foi sempre uma existência tímida e que mal chegou aos nossos ouvidos. Ainda hoje, em pleno século XXI, vou chutar, deve haver uma compositora para cada milhão de compositores. O porquê disso exigiria um tratado sobre relações sociais, o que não é o caso aqui. Então vou tratar de falar sobre compositoras, e talvez assim fique evidente mais essa injustiça às mulheres. A lista de compositoras através dos séculos é até grande. Mas nenhuma “Tchaikovsky”.

Uma exceção que atravessou os séculos vem da Idade Média. É a compositora alemã Hildegard von Bingen (1098-1179), cuja vida intelectual foi tão rica que conquistou respeito mesmo numa sociedade patriarcal medieval: monja beneditina, filósofa, teóloga, compositora, poetisa, estudiosa de botânica. Foi canonizada por milagres atribuídos às suas experiências visionárias, seus pensamentos e suas pregações religiosas. Suas composições, extremamente talentosas, têm sido executadas até hoje por grupos dedicados à música medieval.

Séculos passaram-se pelos períodos da Renascença, do Barroco, do Clássico... sem que as compositoras deixassem marcas na História. Os concertos atuais são populares trazendo nomes como Chopin, Mahler, Beethoven, Prokofiev, Villa-Lobos etc. Quando sabemos de alguma compositora do passado é mais por sua história pessoal do que por suas qualidades musicais, como no caso de Clara Schumann (1819-1896), magnífica compositora e pianista mais conhecida por sua vida com Schumann e sua amizade com Brahms. Alguém já foi a um concerto com músicas de Clara Schumann? No entanto, suas obras são repletas das melhores características do período Romântico.

Chega o século XX e, ainda assim, quando se coloca o foco nas compositoras, surge mais uma prova do quanto ainda vivemos numa sociedade em que as mulheres não são ouvidas. Há atualmente milhares de compositoras e evidente que nem todas merecem atenção (musical), mas muitas são tão espetaculares como qualquer dos melhores compositores atuais, evidentemente. Entre tantas que valem a pena ser escutadas estão a russa Sofia Gubaidulina (1931), a chinesa Chen Yi (1953), a brasileira Marisa Rezende (1944), a portuguesa Isabel Pires (1970)... Um divertido banco de dados com informações sobre compositoras é o site “Composer Diversity Database”.

Aliás, o site ainda inclui pouquíssimas compositoras brasileiras. Hora de colocarmos nossos nomes.

Notas e Acordes

Quarta-feira com três concertos esplêndidos (todos de compositores):

No BNDES, às 19h, a Orquestra Barroca da Unirio (OBU), sob a regência de Patrícia Michelini e com peças de Léclair, Rameau, José Maurício e Lobo de Mesquita.

Na Sala Cecília Meireles, às 20h, o ciclo de canções “Die Schöne Mülerin” (“A Bela Moleira”) de Schubert com os renomados Roderick Williams, barítono inglês, e Iain Burnside, pianista escocês.

No Theatro Municipal, às 20h, a Filarmônica de Dresden com o Concerto nº5 de Beethoven e a Sinfonia nº3 de Bruckner, sob a regência de Michael Sanderling e o pianista Herbert Schuch.



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