Jornal do Brasil

O Outro Lado da Moeda

O Outro Lado da Moeda

Renê Garcia Jr.

A economia da Turquia desaba. Uma crise anunciada

Jornal do Brasil

A implosão da economia turca ao longo das duas últimas semanas teve o efeito de provocar um choque nas expectativas dos investidores em países emergentes e proporcionou um forte movimento de desvalorização nas moedas de alguns países. Esse realinhamento, desvalorização da lira turca, de quase 45% em um curto espaço de tempo, quatro semanas, pode ser explicado por uma longa sucessão de erros de política econômica do governo turco ao longo dos últimos três anos.

Para entendermos melhor esse processo, precisamos qualificar o que de fato é a Turquia na economia global e seu papel no mercado internacional de capitais. Ao longo dos últimos 100 anos, a economia turca passou por períodos de grande instabilidade por conta da deterioração e do fim do império turco otomano depois da primeira guerra mundial, tendo, na atuação de seu maior líder no século XX, Mustafa Kemal Atatürk (1881-1938), a origem do estado moderno turco. Atatürk foi o criador e inspirador do movimento nacionalista de tendência secular que culminou com a revolução e destituição do califado e no estabelecimento da república turca em 1923, com a promulgação da constituição de 1924.

O chamado Kemalismo estabeleceu as bases de estado republicano voltado para a separação de poderes, restrição e isolamento do movimento religioso de tendência fundamentalista islâmica, implementou um programa ambicioso de combate ao analfabetismo (em 1923, somente 10% da população sabia ler e escrever) e igualdade de gêneros, estimulou a implementação da língua turca baseada em caracteres latinos e um sistema educacional voltado para o ensino de matérias e base curricular semelhantes aos europeus, proibiu o uso de trajes árabes e ampliou os direitos do cidadão, construiu as bases de um novo sistema e codificação legal por meio de um código penal e civil inspirado em modelos europeus e através da adequação das instituições a uma orientação pró-europeu e estimulou partidos políticos (leais à doutrina republicana liberal). Na economia, construiu as bases de uma economia industrial, organizou o sistema financeiro com a criação de bancos modernos e instituiu a figura de uma autoridade monetária (banco central) e a dotação de um sistema fiscal e orçamentário. Atatürk é uma espécie de último profeta do Iluminismo, um verdadeiro agente de transformação de valores e princípios, mesmo que, muitas vezes, tenha tomado atitudes autoritárias e inúmeras ações criticáveis aos olhos da democracia liberal do final do século XX.

A Turquia de hoje

Ao contrário da inspiração de Kemal Atatürk, a Turquia é governada nos últimos 15 anos por uma figura com fortes tendências antidemocráticas e vocação para a edição de um califado de inspiração não secular. Recep Erdogan, o atual presidente eleito da Turquia, domina com mão de ferro o país, e, no último mês de junho consolidou sua aversão pelo sistema democrático, ao vencer uma eleição, com ressalvas de observadores, que praticamente implanta um sistema autocrata de poder.

Após a tentativa de golpe levada por setores militares e membros do judiciário e servidores públicos em 2016, o governo de Erdogan reagiu com violência - cerca de 240 pessoas teriam morrido nos confrontos -, e a Turquia foi colocada em um estado de emergência. Segundo a BBC de Londres, cerca de 107 mil servidores públicos e soldados perderam seus cargos, com a prisão de 50 mil pessoas, todas ainda à espera de julgamento. A oposição afirma que pelo menos 5 mil acadêmicos e mais de 33 mil professores perderam seus empregos. Adicionalmente, 150 jornalistas continuam presos, e 90% dos meios de comunicação estariam sob censura ou controle do governo.

A economia turca gera um PIB anual de US$851 Bilhões (2017), algo como 38% da economia brasileira, tem uma população de cerca de 83 milhões de pessoas, passou por um processo forte de crescimento ao longo dos anos recentes (7,5% nos últimos doze meses e uma média anual de 5,0% no período 2014-2016, impulsionado por uma política de estímulo a obras e endividamento público e privado, e, como consequência, a taxa de inflação mudou de patamar, saindo de 7,2% a.a. em 2015 para quase 16% a.a. e o índice de preços por atacado já aponta uma inflação superior a 22, 5 a.a. ,no último mês. O processo de crescimento acelerado estava vinculado à necessidade de dar folga aos movimentos de contestação ao governo.

Em números recentes, podemos identificar, na crise em construção na Turquia, a célebre conjugação de crescimento rápido de déficit fiscal (1,9%), sendo que o desajuste dobrou em 36 meses. Adicionalmente, ocorreu deterioração nas contas externas e o déficit em transações correntes alcançou 5,4% do PIB (os chamados déficits gêmeos), mesmo que proporcionalmente à dívida pública ampliada, como proporção do PIB turco, é baixa (52,3%). Há um problema adicional, pois cerca de 42 % está vinculada ao Euro ou Dólar

O estoque de dívidas de empresas do setor privado de curto prazo, construção civil, siderúrgicas e serviços com os bancos europeus monta algo como 171 % do PIB. Em acréscimo, o sistema bancário nacional foi estimulado a tomar empréstimos e captar recursos no sistema bancário europeu em montantes que somam US$82 Bilhões no curto prazo, com cronograma de apertado de vencimentos para os próximos 14 meses; o atual estoque das reservas internacionais, em queda, da Turquia é de aproximadamente US$130 Bilhões; o movimento de antecipação de uma insolvência iminente provocou uma desvalorização acelerada da moeda alimentada pela postura passiva do banco central turco ao longo da semana passada juros de 17,25 % aa e taxa de dez anos em 21,20% aa;

Em conclusão, a crise turca é localizada com baixíssimo potencial de contágio à economia brasileira, sendo fruto de uma política inconsequente de um governo corrupto. Erdogan e seu genro, o atual ministro da fazenda, são proprietários de grandes empreendimentos imobiliários e tem participação em várias empresas de setores beneficiados pela política de aceleração do crescimento implementada nos últimos anos.

O colapso final aparentemente foi detonado pelo aumento das tarifas de aços laminados e alumínio (150%) por parte do governo Trump, o que contribuiu para afundar ainda mais as expectativas de exportações turcas e diminuir a entrada de capitais. Uma tentativa de emergência está sendo alinhavada pelo governo de Ancara, junto ao governo do Catar, para uma entrada de US$15 Bilhões em investimentos (compra de ativos turcos).

O governo é beneficiado por uma ajuda da Comunidade Econômica Europeia de alguns bilhões de euros anualmente, em troca da criação de cordão sanitário (ou um grande curral) para evitar que milhares de refugiados sírios invadam o território europeu, sem falar da posição estratégica de bases da OTAN em solo turco.

Como vai terminar a crise? Possivelmente em uma grande negociação das dívidas do setor privado com os credores majoritariamente bancos espanhóis (60%), com a falência de várias empresas turcas e a intervenção do banco central turco na maioria dos bancos, com a negociação de um amplo programa de ajuste liderado pelo FMI e um empréstimo no montante não inferior a US$60 Bilhões.

Ao fim do suplício do povo turco, o PIB per capita deverá cair algo próximo a 16% a 18%, - a queda no indicador grego foi de 26% em 4 anos -, havendo, por consequência, um aumento na taxa de desemprego e um ciclo de tensões regionais: Síria, Iraque e Irã envolvendo o chamado território Curdo, o que poderá contribuir para uma possível queda do governo Erdogan.



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