Jornal do Brasil

Cultura

'Glória' - Um drama sobre a solidão

Diretor chileno fala do seu filme concorrente ao Urso de Ouro

Myrna Silveira Brandão para o Jornal do Brasil , Jornal do Brasil

Berlim  - Glória, de Sebastian Lélio, teve uma ótima recepção na 63ª edição do Festival de Berlim, tanto na prévia para a imprensa –  foi o filme mais aplaudido até agora – quanto na sessão de gala para o público que o aplaudiu de pé. 

Com uma cinematografia cada vez mais presente nos festivais mundiais, o filme representa o Chile na Mostra oficial. 

O longa conta a história da mulher que dá nome ao filme, otimamente interpretada por Paulina García, uma pessoa solitária de 58 anos que busca o amor no mundo das festas para solteiros adultos e encontra apenas uma felicidade passageira.  

Um dia ela conhece Rodolfo, um homem de 65 anos com quem estabelece um intenso relacionamento, que vai mudar sua vida trazendo alegrias, mas também muitos problemas. 

Escrito por Lélio e Gonzalo Maza e produzido por Juan de Dios Larrain da Fabula Films, Glória traça o retrato de uma mulher madura, que busca formas para  enfrentar a velhice e a solidão. 

O longa é o quarto filme de Lélio depois de A Sagrada Família (2005), Navidad (2009) e O Ano do Tigre (2011). 

Em entrevista ao Jornal do Brasil, Lélio contou que a principal motivação para realizar Glória surgiu das perguntas que fazia para si mesmo sobre criaturas como a retratada no filme. 

“Eu tentava entender o que se passa com essas mulheres que estão chegando aos 60 anos, talvez pertençam à última geração que foi criada para o casamento e que,  de repente,  se dão conta que estão sozinhas e devem enfrentar as mudanças do mundo”, explicou o diretor resumindo uma definição para sua personagem. 

“Acho que Glória é uma mulher que, para enfrentar a solidão, busca o amor em festas para solteiros e, apesar de nada ou muito pouco encontrar ali, dança, canta e ri.  É uma sobrevivente e, apesar de caminhar para a velhice, está cheia de ganas para viver”, ressaltou. 

Sobre a participação em Berlim, Lélio lembrou que o Chile estava fora da competição há muito tempo, o que aumenta a importância da seleção.

“É uma grande honra, sobretudo considerando que não havia um filme chileno na competição oficial há 21 anos. O último foi La Frontera (que deu o Urso de melhor diretor para Ricardo Larrain). Para mim, é um passo importante como diretor, mas acima de tudo, é uma forma muito forte de começar a vida de um filme”, afirmou. 

Para ele, a boa fase da cinematografia do Chile, que tem gerado reconhecimento da crítica e público, tem a ver com os novos tempos vividos pela sociedade chilena.  

“Acho que é produto do momento histórico e social que vive o Chile desde a recuperação da democracia em 1990. Entre 73 e 90, o governo militar destruiu o cinema chileno e agora vivemos um processo de reaprendizagem, filmando muito e num momento de expansão dos limites possíveis”, destacou o diretor, que embora esteja trabalhando em quatro novos projetos, prefere concentrar sua atenção no lançamento de Glória.

“Ainda não defini qual será o que farei depois de Gloria. Por ora, preciso também de um tempo para acompanhar o filme em sua saída pelo mundo, até que ele possa caminhar sozinho”, disse Lélio revelando que houve um motivo especial para ter colocado músicas brasileiras na trilha. 

Águas de março, do Tom Jobim, por exemplo, foi de grande importância para o filme. Eu estava buscando o tom e o ritmo para o filme e ela veio como uma luva nesse momento”.