Cultura

Banda Rakta se apresenta em Botafogo

Grupo pós-punk paulistano faz shows hoje e amanhã na Audio Rebel

ANDRÉ DUCHIADE, andre.duchiade@jb.com.br, Jornal do Brasil

Sombrio e agressivo, intenso e urgente, o som da banda pós-punk paulistana Rakta se parece com o ar do tempo. Suas integrantes, Carla Boregas (baixo e voz) e Paula Rebellato (sintetizadores, teclado e voz), concordam: “Com certeza, há uma semelhança entre o som do Rakta e o momento que vivemos. Nossa música é fruto de nossas experiências, então é inevitável que o clima pesado do país esteja lá”, diz Carla. “Você cresce vivendo situações em que, mesmo gritando, não te escutam. Isso se esconde em lugares subterrâneos e íntimos. Nossa música é o ímpeto que surge daí: ela sai de um jeito impulsivo, com muitas forças que canalizamos”.

Quem for à Audio Rebel, em Botafogo, hoje e amanhã, poderá conferir o resultado dessas canalizações, em shows junto ao baterista Maurício Takara (do sexteto Hurtmold) e do guitarrista Douglas Leal (do grupo punk Deaf Kids). Será a estreia da banda no palco, depois de outras passagens cariocas. No cardápio, canções de dois álbuns e cinco EPS, lançados entre 2011 e 2017.

Segundo Carla, a expectativa para o show é a de um transe. Os elementos rituais são fáceis de identificar: um som cru, com batidas secas e primitivistas, repetições insistentes e letras com títulos que evocam o misticismo, como “Filhas do fogo” e “A busca do círculo”. Nas palavras de Carla, tudo converge na direção da cerimônia: “Gosto de música que te ajude a sair do estado ordinário da mente ou do corpo Precisamos de escape: experimentar outras vidas, o corpo de outra forma”.

Desde a formação em 2011, o Rakta – segundo as pró- prias, do sânscrito, “componente de energia, que produz movimento, força e expansão” – passou por transformações significativas. 

Inicialmente um quarteto, a banda se reduziu a um trio em 2014, quando a guitarrista Laura Del Vecchio se mudou para Barcelona. Há cerca de um ano, foi a vez de a baterista Nathalia Viccari se transferir para Buenos Aires. Ao invés de procurar substitutos fixos, as remanescentes experimentaram com o que dispunham: às vezes se apresentam sem guitarras, em outras convidam dois bateristas e, em certas ocasiões, chamam alguém para tocar sopros.

A repercussão tem sido notável, dentro e fora do país. Além de ter recebido atenção de veículos brasileiros, a revista britânica “The Wire”, considerada a mais importante publicação de música experimental do mundo, e a rádio americana NPR já dedicaram espaço à banda. Em sua página no Bandcamp (plataforma de apoio a músicos), a maior parte dos apoiadores é estrangeira.

Para Carla, isso se deve a “fatores econômicos e culturais, como no exterior é mais comum gastar com cultura que aqui. Mas é engraçado pensar que temos maior repercussão internacional que no Brasil. Chegamos ao Japão sem nunca ter tocado em um grande festival daqui”. As turnês pelos Estados Unidos, Colômbia, México, Europa e Canadá, entre outros, são possíveis devido à existência de redes autônomas que apoiam artistas independentes. “Viemos de um meio onde as pessoas se organizam em rede e tomam a iniciativa por conta própria”, diz Carla.

Em termos de feminismo, a baixista ressalta que dispensa a pecha, de longa história no rock, de “banda de garotas”. “Talvez exista um fetiche nessa ideia de ‘banda de mulher’. Há algo positivo e negativo nisso: é legal que as mulheres se unam e façam coisas juntas. Mas a partir do momento em que isso vira obrigação, passa a ser castrador”. Apesar disso, Carla classifica o atual momento de popularização do feminismo como “maravilhoso”, ressaltando “que todas as formas do feminismo devem existir”.