Cultura

Documentário ‘Safári’ estreia amanhã provocando riso e desconforto

Em entrevista ao JB, Ulrich Seidl dá uma aula de antropologia

Rodrigo Fonseca, especial para o JB, Jornal do Brasil

É difícil conter a indignação diante de uma indigesta sequência do documentário austríaco “Safári”, que estreia no Brasil nesta quinta-feira, na qual a pele de uma zebra é arrancada diante dos olhos orgulhosos dos caçadores europeus – de classe média – que a abateram. O estranho é o fato de a nossa indignação se expressar muitas vezes ao longo desse filme na forma de riso... ou até de gargalhada... Mas são risadas nervosas, desconfortáveis. Causar desconforto é uma das metas de Ulrich Seidl, polemista de plantão, na ativa nas telas desde 1980, hoje considerado um dos mais importantes diretores da Áustria. Filmes como “Import export” (indicado à Palma de Ouro de 2007) e “Paradise: Faith” (pelo qual conquistou o Prêmio Especial do Júri do Festival de Veneza em 2012) deram a ele o selo da controvérsia: o ato de filmar para este vienense de 65 anos é um gesto para tirar o espectador da inércia e da indiferença em relação aos sintomas de exclusão da realidade. A caça ilegal é um deles. 

“Safári” parece uma comédia, em especial nas cenas em que um grupo de turistas germânicos em visita à Namíbia e à África do Sul fala do preço a ser pago por couros, chifres e cascos

Lançado mundialmente no Festival de Veneza de 2016, “Safári” parece uma comédia, em especial nas cenas em que um grupo de turistas germânicos em visita à Namíbia e à África do Sul fala do preço a ser pago por couros, chifres e cascos. É difícil acreditar no tom patético de figuras como um casal que exorciza suas DRs afetivas caçando mamíferos indefesos. Mas essa é a marca do cineasta: uma ironia no tênue limite entre o deboche e o desrespeito.     

Na entrevista a seguir, Seidl dá ao JB uma aula de antropologia sobre os bichos mais perigosos que encontrou nas savanas, usando quilos de protetor solar e portando rifles.  

JORNAL DO BRASIL: De que maneira “Safári” analisa práticas de poder na relação entre europeus e africanos?   

ULRICH SEIDL: A princípio, havia a ideia de que “Safári” fosse um filme sobre pessoas que tiram férias para caçar na África. Eu queria observá-las e descobrir as razões pelas quais elas passam suas férias matando animais. Eu me perguntava por que elas fazem isso e o que elas sentem caçando bichos. É preciso considerar e até ressaltar o fato de que este tipo de “passatempo” se tornou, há tempos, bastante viável para o europeu médio. Pouco a pouco, no processo de realização do documentário, ele adquiriu um significado político complementar, mais aprofundado no que diz respeito a dinheiro. O poder do homem sobre a natureza está ligado à sua exploração e à sua destruição: o abate de animais selvagens é apenas um reflexo disso. O ser humano pode, em sua cobiça, violentar a natureza numa escala em massa, destruindo suas próprias condições de subsistência. A humanidade caminha em direção ao próprio suicídio. Esta é a dimensão política deste filme.

Qual é o conceito de selvageria que melhor se aplica a “Safári”? 

Os animais neste documentário são as presas dos turistas que se dedicam às caçadas. É uma luta injusta e desigual. Se é que se pode falar aqui em luta, já que o único risco que os caçadores enfrentam consiste em errar o alvo e alvejar o animal em áreas não letais. Mas isso por si só não traz nenhum tipo de consequência física aos predadores.

O senhor fez, no início desta década, uma trilogia ficcional, que se tornou a parte mais famosa e polêmica de sua obra, chamada “Paraíso”, sobre fé, desejo e esperança, também centrada na incursão de turistas germânicos em países africanos. Como é que a trilogia ajudou a pavimentar os caminhos para a investigação moral de “Safári”?

Comparado com a trilogia “Paradise: Love”, “Paradise: Faith” e “Paradise: Hope”, “Safári” é um filme que vai mais além no tema da “condição humana”, portanto fala mais sobre a existência humana em si e para si. É um filme sobre o ser humano em busca do amor, o ser humano com seu abuso de poder, o ser humano em sua solidão.  Por fim, o tema do colonialismo contemporâneo desempenha um papel nada desprezível. Foi uma decisão muito consciente a de não dar voz aos africanos negros em “Safári”: para expressar a opressão colonial.

O senhor aponta a prática suicida da erosão dos recursos naturais como a tese política de “Safári”. Mas, além dela, que outros debates políticos que você busca abrir, conscientemente, com seu cinema? 

Todos os meus filmes – seja documentário ou ficção – são políticos porque eles se projetam como retratos dos costumes das sociedades ocidentais. Antes que eu realizasse meu primeiro longa de ficção, “Dog days”, de 2001, filmei muitos documentários que sempre se compuseram também a partir de elementos ficcionais. Meus documentários são filmes com personagens de ficção, minhas ficções são filmes com personagens documentais. Com isso, extrai-se da realidade uma base fundamental.

Há sequências de “Safári” no qual o silêncio gera um efeito perturbador. Qual é o papel estético do silêncio no cinema que você faz?

Quando corretamente posto em cena, de modo emocional e associativo, o silêncio eleva a atenção do espectador, sobretudo neste momento em que as plateias não estão mais acostumadas com a quietude. Quem só assiste TV, ao encarar cenas silenciosas, acredita que o silêncio é um problema técnico. Meus filmes não possuem, a princípio, nenhuma música composta para ser empregada como recurso dramatúrgico.

*Roteirista e presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro