Editorial

O que fazer em dez meses?

Jornal do Brasil

Tarefa imediata do presidente Temer, em marcha para cumprir os dez meses que lhe restam no cargo, é recompor o primeiro escalão, consequência da retirada de 11 ministros que se preparam, desincompatibilizados, para disputar as eleições de outubro. Pode, à primeira vista, parecer que a reorganização da assessoria direta se dá pela via de expedientes simples, com a chamada de pessoas de indicação da base de apoio ou da confiança pessoal. Nem sempre esse rito consegue prevalecer.

Seja como for, quem quer que as conveniências do poder recomendem, é de se esperar que a chegada de novos titulares nesta semana, mesmo estando com data marcada para sair, não imponha solução de continuidade em relação a processos e programas importantes que estarão herdando, mas saibam dar continuidade ao que não deve ser interrompido.

No conjunto das responsabilidades desses rápidos ocupantes das cadeiras ministeriais também figura preparar as pastas para facilitar o desempenho dos que vierem a sucedê-los; porque a gestão pública tem como recomendação, nem sempre preservada, de se dar continuidade aos trabalhos em curso. Não raro, ministros, nem diferentemente de presidentes, preferiram interromper iniciativas de seus antecessores, esquecendo-as de vez ou para retomá-las mais tarde e delas assumir a paternidade. Compete respeitar o não realizado e o ainda realizável, quando o gestor  tiver diante de si casos de indeclinável interesse da nação. 

É uma constatação que não pode encontrar recusa das vozes mais responsáveis, porque a máquina administrativa não se emperra por causa de incompetências ou esquemas secundários de grupos políticos. Quanto aos novos, sem prescindir de ânimo para realizar o máximo possível em tão pouco tempo,  o fato de estarem próximos do fim não autoriza contribuir para empurrar o governo em banho-maria, sem maior interesse por ações governamentais. Nada é mais triste que a sonolência dos gabinetes em fim de gestão, associada à escassa solidariedade dos amigos e às atenções  meramente circunstanciais. 

Se o tempo corre, é exatamente por isso que se torna necessário reagir ao ócio e trabalhar com rapidez na solução de pendências e remoção dos obstáculos que atropelam programas essenciais para o país.

Ocorrendo, por razões diversas, que os caminhos dos ministros se mostrem de trânsito difícil para realizações de maior vulto e expressão, que, pelo menos, correspondam a uma velha expectativa de colocar o Brasil retomando o combate aos excessos da burocracia, que tanto infelicitam o desenvolvimento e irritam a paciência dos cidadãos. Sai governo, entra governo, e não se consegue extirpar esse entulho, responsável pela cota maior dos nossos atrasos, como exemplo, as dificuldades para início e cessação de atividades produtivas. A empresa que aqui leva três ou quatro meses para poder começar, em outros países seriam suficientes apenas alguns dias. A nação mergulhada numa infinidade de papéis, carimbos, despachos acumulados e selos autografados pelas garatujas de oficiais credenciados de cartórios monárquicos; tudo para compor um inferno convidando a desistir. 

Pois os onze novos ministros terão feito muito, porque para o bastante não haverá tempo, se realizarem um trabalho conjunto e solidário para começar a condenar ao lixo o dispensável da burocracia que inferniza a vida. Pode ser um bom começo para torná-los credores do reconhecimento público.