Editorial

Sanção fora de suspeita

Jornal do Brasil

O Brasil foi subscritor (na verdade inspirador) da moção do pleno da Organização dos Estados Americanos, em que se votou a exclusão da Venezuela, depois de afirmadas e confirmadas as evidências de que o país vizinho rompeu com os princípios democráticos, prendeu e calou a oposição, favorecendo um pleito, cujos resultados os observadores internacionais, insuspeitos, apontaram como deturpado e manchado de vícios. Viu-se, nesses últimos dias, que a iniciativa não deixou de levantar críticas, partidas, principalmente, de centros socialistas internacionais que advogam, sem limites, a autodeterminação dos povos. Entre esses, a apoiá-los, também parte da imprensa. Mas quanto a esta bastaria lembrar o pórtico de Clarence Scott, do “Manchester Guardian”: a opinião é livre, mas os fatos são sagrados. Há, portanto, limites respeitados para a tarefa de informar e opinar.

A sanção, amplamente aceita por organismos de defesa dos princípios democráticos, não ofendeu a autonomia dos venezuelanos, pois o que se pretendeu foi excluir da convivência americana, não o povo, mas o governo que se colocou contra seu próprio povo e, para tanto, agride os direitos elementares. Votou-se foi a exclusão do governo de Caracas da convivência continental. É preciso um esforço hercúleo para interpretá-la diferentemente.

Quanto aos nacionais, não cessaram as iniciativas de solidariedade, sendo exemplar, nesse particular, a conduta brasileira. O acolhimento aos venezuelanos foi ao máximo possível; de tal maneira que Roraima, nossa unidade mais próxima da fronteira, tornou-se centro assistencial dos imigrantes em fuga, criando-se ali uma população artificial superior à de muitas regiões do país de onde correram. Saúde, alimentação, abrigo e, mais recentemente, postos de trabalho foram abertos, para confirmar que, no presente caso, o Brasil não pecou na omissão, muito menos desrespeitou o vizinho. O mesmo não podem dizer ideólogos bolivarianos de outras partes do continente latino, que preferiram dar as costas às levas de imigrantes desesperados e famintos; a multidão de aflitos.

É grosseira deformação, percebe-se, achar que a decisão da OEA teria sido ato político hostil voltado contra a exótica pessoa do presidente Maduro, ainda que sobre ele posem, com justiça, responsabilidades pelo caos que patrocinou, além da obra de miséria contrastante para uma Venezuela que se assenta sobre vastos lençóis de petróleo.

A sanção – eis um detalhe que não pode escapar - representa, com singular vigor, a convocação àquele governo desvirtuado a retomar sua fé na democracia. Porque essa há de ser “impermeável à corrupção e que faça a captação da vontade popular. E também, como condição, um processo eleitoral que possa conduzir aos postos de mando aqueles que realmente o povo quis”. Vide reflexão do ministro Carlos Velloso.

Com o reaparecimento de algumas críticas à decisão da entidade representativa dos países americanos, embora ela tenha sido tomada à luz das evidências reveladas por Caracas, percebe-se que as censuras contrárias têm a chancela suspeita de setores políticos amantes dos governos de força; os que consideram direitos humanos detalhe secundário. E conspurcam a História, quando pretendem alegar que as ações do governo Maduro inspiram-se no modelo bolivariano. O socialismo dos manifestos de Simon – basta interpretá-los - pregaram um ideal socialista; porém sem sacrifício de liberdades.