Editorial

Momento para as eleições

Jornal do Brasil

Restando apenas e exatamente três meses para que se realizem as próximas eleições, cuja importância maior reside no fato de se substituir titulares do Poder Executivo federal e estadual, o que se ouve dos políticos, como também de quem milita em outros campos, é que a campanha ainda não conseguiu provocar interesse e motivar o grande público. Na verdade, nem se poderia dizer que o discurso tenha se aproximado das ruas e das praças; o assunto permanece restrito aos meios que têm interesse direto no destino das urnas.

Apregoa-se que, antes da Copa do Mundo, nada é suficientemente importante para reter as preocupações. Já se dizia isso em relação ao carnaval, competente, ele sim, não o insosso janeiro, para definir quando realmente o ano começa. Em Minas, onde os políticos eram tidos como hábeis em jogar com o tempo, o governador Hélio Garcia dispensava copas e carnavais e ia mais longe: para ele, não havia como conversar definitivamente sobre eleição antes da parada de Sete de Setembro... É que, naqueles dias, o apoio e as alianças andavam sob o comando dos chefes políticos e do folclórico coronel do interior, que custou a desaparecer. Ao pé do ouvido, as decisões eram tomadas ou não. 

Mas não é prudente desconhecer que, por maior e justificável que seja o interesse popular por aqueles eventos, e ainda que possam ser respeitáveis pela capacidade de produzir emoções, outros assuntos de relevância não deviam ser objeto de adiamentos. As lideranças políticas podiam estar com um olho em Moscou e outro nas eleições, já municiadas com os discursos, nestes três meses, sem prejuízos para as festas. Conciliáveis, sem dúvida. Uma tarefa que se devia transferir, antes de tudo aos partidos, antes mesmo dos candidatos. O valor de uma coisa não justifica o total esquecimento de outras. Até porque, é perigoso desconhecer que temos, na ordem do dia, duas eleições – majoritária e proporcional – que chegarão dentro de 90 dias; reduzidíssimo prazo para que o universo eleitoral e a consciência nacional assumam atitudes ou tendências que haverão de refletir sobre os destinos do país. Não se poderia olvidar que este é um momento em que nossos muitos problemas parecem carregados em jamanta. 

Pelo que seja possível lembrar, em anos anteriores, nos tempos tão próximos das urnas, os candidatos à Presidência da República não apenas estavam definidos e conhecidos, como largamente debatidos seus programas de governo. Para contestar, há de se dizer que os recursos de comunicação de hoje suprem as limitações do calendário. O que é apenas meia verdade, porque à sociedade organizada, sem comparação com o passado, é preciso garantir condições para estudar e refletir sobre o que dizem, o que querem, o que prometem os candidatos. As complexidades do momento bastariam para justificar. Diante de tal fato, os programas de rádio e de televisão são insuficientes, para tanto concorrendo os recursos da maquiagem, o truque das imagens e das vozes, que, na maioria das vezes, chegam à população em cenários e montagens que pouco se importam com a essência das ideias. Em favor da escassez e da brevidade das campanhas de agora, também ocorre que, em processos eleitorais antigos, não atualmente, o candidato se via obrigado a correr em busca do eleitor, com um ano de antecedência, pois a comunicação era precária, quase limitada aos comícios; e as viagens exigiam incrível padecimento. Também há um pouco de verdade nisso.

Seja como for, o fator de preocupação que se sobrepõe a tudo é que o país encontra-se numa encruzilhada, sem identificar que rumos tomar, frente a indagações várias sobre as instituições; a quem confiar o leme, sabendo que é preciso navegar com dificuldades em céu aberto, além do risco de encalhar na enseada insegura dos poderes constituídos, que perderam a credibilidade.