Jornal do Brasil

Jazz

Martial Solal e Dave Liebman: 'Masters in Bordeaux' 

Luiz Orlando Carneiro, Jornal do Brasil

Quando do lançamento de Longitude (CAM Jazz), de Martial Solal, em 2008, escrevi nesta coluna que qualquer registro fonográfico do fantástico pianista “é um acontecimento de repercussão geral reconhecida naquela parte do planeta jazz onde há vida inteligente e sensibilidade artística refinada”. Nas liner notes daquele CD, o professor Dan Morgenstern afirmou: “Há poucos prazeres mais intensos na vida de um amante de jazz do que ouvir a música de Martial Solal. Ele é um mago do teclado”.

Estes comentários continuam up to date neste momento em que o maior dos jazzmen europeus - cidadão do mundo nascido há 90 anos(!) na Argélia, então colônia francesa – reaparece nas lojas virtuais e serviços de streaming em Masters in Bordeaux (Sunnyside). Desta vez, na gravação ao vivo de um concerto em duo, com o também excepcional saxofonista Dave Liebman (soprano e tenor), de julho doano passado, no Wine and Jazz Festival de Sauternes, Bordeaux.

Pianista de 90 anos e saxofonista de 70 foram gravados ao vivo no Wine and Jazz Festival de 2016
Pianista de 90 anos e saxofonista de 70 foram gravados ao vivo no Wine and Jazz Festival de 2016

Vale lembrar que Liebman, hoje com 71 anos, começou a ficar conhecido ao trilhar o caminho da fusão jazz-rock, participando, em 1972, da primeira das sessões do LP On the Corner (Columbia), de Miles Davis, ao lado dos elétricos Herbie Hancock, Chick Corea e John McLaughlin. Mas, aos poucos, ele aderiu ao legado de John Coltrane, incorporando-se à vanguarda bem mais especulativa, e fundando o quarteto Quest (que significa busca, aventura), com Richie Beirach (piano), Ron McLure (baixo) e Billy Hart (bateria). Este grupo atuou com sucesso de 1981 a 1991. Em 2011, o saxofonista foi “sagrado” Jazz Master pela NEA (National Endowment for the Arts).

Sobre o encontro com mestre Solal no festival de jazz de Bordeaux, mestre Liebman escreveu nas notas do álbum: “As diversas vezes em que tocamos juntos no ano passado (na turnê francesa de 2016) foram muito significativas pra mim. Embora o repertório queinterpretamos represente o standard jazz song book (escolhido no momento das apresentações), interagir com aquele que é, sem dúvida, o mais famoso artista de jazz europeu de todos os tempos, tocando standards, não é algo que aconteça todo dia”.

E aí está exatamente o que há de mais atraente nessa seleção de cinco canções bem batidas, mais um original jazzístico também muito conhecido (Solar, de Miles Davis). As outras faixas são: All the things you areNight and day What is this thing called loveOn GreenDolphy Street e Lover Man.

O duo Solal-Liebman, em interação constante, descobre ou inventa trilhas surpreendentes a partir do material melódico básico, em variações harmônicas e tiradas rítmicas tão espertas que é impossível cravar de quem é a iniciativa para manter ou mudar o rumo da “viagem” musical. Parecem dois garotos muito espertos na faina de montar (ou desmontar) uma série de puzzles.

O site jazzstandards.com tem uma lista dos 300 temas musicais mais interpretados por instrumentistas e vocalistas em gravações consideradas jazzísticas. All the things you are (de Jerome Kern, 1939) é o segundo da relação (entre Body and soul e Summertime). Pois bem. Em Masters in Bordeaux, Liebman (no sax soprano) consegue extrair linhas modais inimagináveis da velha canção, impulsionado por um ostinato inicial e comentários de Solal que, depois, sola sem nenhum compromisso com as habituais chord progressions. Em On Green Dolphin Street, depois de uma abertura mais ou menos à la lettre, os dois mestres tomam um rumo bem free, com o saxofonista fazendo lembrar o saudoso Steve Lacy. 

(A faixa All the things... pode ser ouvida em:

soundcloud.com/sunnysiderecords/martial-solal-dave-liebman-all-the-things-you-are)