Jornal do Brasil

Jazz

'The passion of Charlie Parker'

Luiz Orlando Carneiro, Jornal do Brasil

Lançado há três meses, ainda é tempo de recomendar o álbum The Passion of Charlie Parker (Impulse!), no qual o produtor Larry Klein conseguiu a proeza de juntar – para “contar” a vida do genial fundador do bebop, através de sua temática - vocalistas famosos como Kurt Elling, Gregory Porter e Madeleine Peyroux, além de cantores menos conhecidos ou em ascensão como a francesa Camille Bertault e a canadense Barbara Hannigan. Também está no CD a notável Luciana Souza, paulistana graduada no Berklee College of Music, Grammy winner, e que vive nos Estados Unidos há mais de 20 anos.

Nas 10 faixas e dois interlúdios dessa original empreitada de Klein e David Baerwald (autor da maioria das letras inseridas nas composições de Parker) atua ativamente um quinteto instrumental da Primeira Liga do jazz, liderado por Donny McCaslin (sax tenor), com Craig Taborn (piano, teclados), Ben Monder (guitarra), Scott Colley ou Larry Grenadier (baixo) e Eric Harland ou Mark Guiliana (bateria).

Vocalistas famosos "contam" a vida do pai do bebop
Vocalistas famosos "contam" a vida do pai do bebop

“Com este álbum – explica o produtor – tentei fazer algo novo e diferente, num esforço para ilustrar quem era 'Bird' (Charlie Parker) como um caráterarquetípico, e chamar a atenção para o impacto enorme da sua obra no jazz. Para isso, em vezs de uma outra seleção de temas de Charlie Parker numa tradicional sessão bebop, criamos uma espécie de peça musical que, dentro das limitações de uma única gravação, procura seguir o arco narrativo de sua vida (1920-1955)”.

Klein espera ter criado “uma linguagem musical que dá a impressão de representar o que 'Bird' poderia estar fazendo agora, se vivo fosse, tocando esses temas”. Ou seja, o álbum “vai contra as normas usuais do gênero 'tributo', apresentando uma espécie de peça musical sobre Charlie Parker; a transcendência de sua obra; seus anjos e seus demônios”.

The Passion of Charlie Parker é um registro realmente incomum. Não se trata de uma sessão em que um combo instrumental limita-se aacompanhar cantores de prestígio interpretando temas do Bird. Mas sim de performances muito bem arranjadas de um quinteto no qual o saxofonista tenor de McCaslin é o solista principal, responsável pela maioria dos solos, em interação constante não só com os vocalistas, mas também com os teclados de Taborn e a seção rítmica propriamente dita. Ou seja, os vocais não são predominantes, embora essenciais para o desenvolvimento e melhor compreensão das peças e de seus subtítulos.

Só para se ter uma ideia, na faixa de abertura, Ornithology/Meet Charlie Parker (6m20), o tema é exposto pela voz bem soft de Madeleine Peyroux, em pouco mais de um minuto, seguindo-se, em ritmo dobrado, um ardente solo de McCaslin, de mais de três minutos. EmVisa/The epitaph (3m55) a soprano Barbara Hanning – de formação erudita – usa os seus dons vocais, com efeitos eletrônicos, como seu fosse mais um “instrumento” acrescentado ao quinteto básico. Luciana Souza brilha, na arte do scat singing, em Bloomdido/The song of the acolyte (3m20), em contraponto com o sax tenor e o pianista. E a revelação Camille Bertault é simplesmente incrível no scat, ao lado do sax de McCaslin, em Au Privave/The apotheosis of Charlie Parker (2m45). 

É claro que são também inestimáveis as colaborações de Kurt Elling em Moose the mooche/The dealer's song (4m20) e de Gregory Porter em Yardbird Suite/A genius in his youth (4m50), em diálogo que termina também em scat com McCaslin. 

(Samples de dois minutos de todas as faixas em: juno.co.uk/products/the-passion-of-charlie-parker/652686-01/)