Jornal do Brasil

Jazz

Anat Cohen lidera tenteto em 'Happy Song'

Luiz Orlando Carneiro, Jornal do Brasil

Há quase um ano (26/11/2016), esta coluna foi dedicada a Anat Cohen - a mais brilhante clarinetista da atual cena jazzística, independentemente de gênero – quando ela se apresentou no Brasil quando do lançamento do CD Outra Coisa/The Music of Moacir Santos (Anzic Records), em duo com o notável violonista (de sete cordas) Marcello Gonçalves. Em 2015, Anat já tinha empolgado a crítica especializada com um outro registro de temática e “jeitinho” brasileiros: Luminosa, à frente do trio Jason Lindner (piano)-Joe Martin (baixo)-Daniel Friedman (bateria).

A irrequieta e sempre criativa jazzwoman israelense-novaiorquina está de volta às lojas virtuais, no seu selo Anzic, com o álbum Happy Song, gravado no ano passado. Desta vez, na liderança de um tenteto, contando com direção musical e arranjos de seu conterrâneo, amigo e colaborador Oded Lev-Ari, que emigrou para os Estados Unidos para ser aluno do grande Bob Brookmeyer (1929-2011) no New England Conservatory.

Novo álbum da clarinetista nº 1 do jazz tem Oded Levi-Ari como arranjador
Novo álbum da clarinetista nº 1 do jazz tem Oded Levi-Ari como arranjador

A clarinetista (que também é craque no sax tenor) tem uma respeitável discografia, desde os tempos em que integrava o sexteto 3 Cohens, ao lado de seus irmãos Avishai (trompete) e Yuval (sax soprano). Nas formações à frente de trio ou quarteto, firmou a sua reputação em três discos empolgantes: Notes from The Village (2008), Live at The Village Vanguard (2010) e Claroscuro (2012).

Mas em Happy Song ela tem, pela primeira vez, a oportunidade de “desfilar” pelo “tapete vermelho” provido por uma formação bem maior. No caso o tenteto dirigido por Levi-Ari, integrado pelos seguintes músicos: Sheryl Bailey (guitarra), Nadje Noordhuis (trompete), Owen Broder (sax barítono), Nick Finzer (trombone), Rubin Kodheli (violoncelo), Vitor Gonçalves (acordeão), James Shipp (vibrafone, percussão), Tal Mashiach (baixo) e Anthony Pinccioti (bateria).

A faixa-título, de quase quatro minutos, é levada numa batida bem “sambada”, o clarinete saltitando por sobre um envolvente crescendo polifônico. Valsa para Alice (4m40) é uma melodia melancólica, desenvolvida com intervenções do vibrafone e do acordeão de Gonçalves (membro do quarteto Choro Venturoso que Anat às vezes reúne em Nova York). Oh baby (8m35) é uma homenagem explícita a Benny Goodman (que gravou o tema em 1946), com intervenções do vibrafonista Shipp e da guitarrista Sheryl Bailey.

A faixa central da setlist é uma espécie de suíte em três partes, intitulada Anat's Doina (12m15). Com a palavra o colunista especializado do Chicago Tribune, Howard Reich: “A suíte inspira-se profundamente na música klezmer e evoca de modo pungente a vida dos judeus na época passada na Europa Oriental”. Mas na parte final, a clarinetista-compositora decide “to write my own take”, e encerra a suíte naquele clima alegre e celebratório típico das festas de casamento judaicas.

As outras faixas de Happy Song são: Loro (6m50), de Egberto Gismonti, interpretada num ritmo corrido de chorinho (e de baião), e realce para a “sanfona” de Gonçalves; Trills and thrills (6m55), ou seja, “trinados e emoções”, incluindo um solo “eletrizante” da guitarrista Bailey; Goodbye (4m30), peça meditativa de Gordon Jenkins; Kenedougou Foly (5m40), de melodia e impacto rítmico típicos da África Ocidental, acentuados por riffs constantes do conjunto. 

(A faixa-título oide ser ouvida em: anzicstore.com/album/happy-song)