Jornal do Brasil

Jazz

'Latin Lover' é o novo álbum de Richie Cole

Luiz Orlando Carneiro, Jornal do Brasil

Quem vai muito bem, obrigado, é o quase septuagenário saxofonista alto Richie Cole. Radicado já há algum tempo em Pittsburgh, ele ficou famoso no planeta jazz lá se vão quatro décadas, ao popularizar o bebop à frente do quinteto que batizou de “Alto Madness” (loucura no alto). O seu primeiro LP com esse título, gravado pela etiqueta Muse em 1978, foi um best seller, logo seguido por Hollywood Madness e Tokyo Madness, ambos de 1980. No ano seguinte, a Muse editou Side by Side, registro de um concerto de Cole ao lado de seu professor, o grande Phil Woods (1931-2015).

Com uma “folha corrida” na qual se contam 40 álbuns como líder desde Alto Madness, Richie Cole está de volta às lojas virtuais com o lançamento de Latin Lover, no seu próprio selo (Richie Cole Presents). A sessão é de fevereiro deste ano, e o saxofonista lidera um quinteto integrado pelo baixista e produtor Mark Perna, por Eric Susoeff (guitarra elétrica, violão), Kevin Moore (piano acústico ou elétrico) e Vince Taglieri (bateria). Como fica claro no título do disco, os 12 temas escolhidos por Cole atestam o seu amor pelo cancioneiro “latino”, seja das Américas ou da Espanha. Mas esta é a primeira vez que ele dedica um álbum inteiro à jazzificação da chamada Latin Music.

Saxofonista de 'Alto Madness' lidera quinteto com baixista-produtor Mark Perna
Saxofonista de 'Alto Madness' lidera quinteto com baixista-produtor Mark Perna

Os quatro primeiros números da setlist têm origens diversas, mas o mesmo tratamento sempre esperto e envolvente do mais celebrado e agitado discípulo de Phil Woods. If I only had a brain (4m40), um standard de Harold Arlen, de 1939, é levado num ritmo sambado, com solo também de Susoeff no violão; Cielito Lindo (5m35), ranchera mexicana típica do repertório dos mariachis, é interpretada em tempo rápido; Eclipse de luna (3m45), um bolero da década de 1940, da cubana Margarita Lecuona, é soprado romanticamente, quase à la lettre, pelo saxofonista-líder; Lonely bull (3m30), hit da banda Tijuana Brass, em 1962, dá ao álbum o toque espanhol, com vozes em uníssono ao fundo.

A bossa nova é referencial em duas faixas de Latin LoverGirl from Carnegie (6m40), insinuante original de Cole que ele mesmo diz ter como base Garota de Ipanema, de Tom Jobim, com realce mais uma vez para o violão de Susoeff; Island breeze (5m30), um dos temas daquele antigo LP Alto Madness, que o saxofonista recria com nova bossa.

Na peça de encerramento do recém-lançado álbum - uma versão em tempo muito rápido de Almost like being in love (4m55) - Richie Cole exibe todo o seu engenho e arte, reafirmando o seu inalienável direito à marca “Alto Madness”.

(As faixas de Latin Lover podem ser ouvidas em: markpernamusic.com/mark-perna)

(Um vídeo com parte da gravação de The girl from Carnegie pode ser apreciada em:

www.youtube.com/watch?v=VF6cFyI1QXM)

MUHAL RICHARD ABRAMS (1930-2017)

Em 1965, o pianista-compositor Muhal Richard Abrams, o baixista Malachi Favors, o pianista Jody Christian e o baterista Steve McCall, à frente de alguns outros então jovens jazzmen de Chicago, fundaram a Association for the Advancement of Creative Musicians (AACM). Dessa associação surgiu o Art Ensemble of Chicago (Lester Bowie, Roscoe Mitchell, Joseph Jarman & Cia), que foi um dos mais importantes conjuntos do chamado free jazz.

Muhal Richard Abrams morreu no último dia 29 de outubro, aos 87 anos. Sua carreira foi paralela à do Art Ensemble, mas tão marcante no jazz milieu em termos de influência como a daquele combo cujo lema era “Great black music: Ancient to the future”. Em 2010, Abrams recebeu da National Endowment for the Arts o cobiçado título de “Jazz Master”; em 2012, foi agraciado com um título honorário de doutorado pela Universidade de Columbia.

Em agosto de 2013, sobreviventes da AACM foram reunidos por um dos mais “moços” deles, o mestre-baterista Jack DeJohnette, então com 72 anos, num quinteto batizado como Made in Chicago. Desse grupo fizeram parte Muhal Richard Abrams, Roscoe Mitchell e o também notável saxofonista-compositor Henry Threadgill. A apresentação desse conjunto no Chicago Jazz Festival daquele ano foi gravado e editado pela ECM.

(A faixa Museum of time do CD Made in Chicago pode ser ouvida em: http://player.ecmrecords.com/dejohnette-2392)