Jornal do Brasil

Jazz

'In Transit': Novo álbum do baixista Kyle Eastwood

Luiz Orlando Carneiro, Jornal do Brasil

Já quarentão e com sete álbuns lançados como líder entre 1998 e 2015, Kyle Eastwood deixou de ser, já há algum tempo, aquele filho-que-toca-contrabaixo do octogenário Clint Eastwood, ícone do cinema americano, premiado autor de filmes excepcionais como Sobre meninos e lobosMenina de Ouro Gran Torino.

Vale lembrar que o cineasta Clint sempre foi jazzófilo assumido e é pianista amador. E foi também prefeito de Carmel, cidade litorânea da California, onde o baixista Kyle passou a infância e cresceu, estudando música, ouvindo Miles Davis, Horace Silver, Dave Brubeck, Thelonious Monk, dentre outros ídolos do seu pai. Ele diz recordar-se, “vivamente”, de ter visto e ouvido ao lado do pai, quando tinha apenas oito anos, a orquestra de Count Basie no Festival de Monterey de 1976.

Kyle - que não é mais apenas o "filho de Clint Eastwood" - lidera combo, com saxofonista Stephano Battista como convidado  
Kyle - que não é mais apenas o "filho de Clint Eastwood" - lidera combo, com saxofonista Stephano Battista como convidado  

Nos últimos 12 anos, Kyle Eastwood tem vivido e atuado mais na Europa (França e Inglaterra, principalmente) do que nos Estados Unidos, onde se apresentou, em setembro último, no 60º aniversário do histórico Monterey Jazz Festival. E, agora, o selo francês Jazz Village lançou o álbum In Transit, gravado em abril deste ano, nos arredores de Paris, no qual o baixista-compositor lidera o seu quinteto europeu, com Andrew McCormack (piano), Quentin Collins (trompete, flugelhorn), Brandon Allen (sax tenor) e Chris Higginbottom (bateria). O excepcional saxofonista italiano Stefano di Battista atua como convidado em quatro das 10 faixas do novo CD.

As três primeiras peças de In Transit dão logo o tom dominante do conjunto de Eastwood: hardbop com tempero soul, a partir de temas que nos remetem àquele quinteto do imortal pianista-compositor Horace Silver dos anos 1960, com Blue Mitchell (trompete) e Junior Cook (sax tenor). Estas faixas são: Soulful times (3m50), do trompetista Collins; Rush hour (4m10), criação coletiva do grupo em tempo acelerado; Movin' (6m50), bem bluesy, assinada pelo líder e pelo pianista McCormack, que têm especial oportunidade de exibir, como solistas, seus notáveis predicados técnicos.

Stefano Battista começa a sua participação neste novo e ótimo registro do combo do amigo Kyle soprando o sax soprano numa versão evidentemente romântica do Love theme de Cinema Paradiso, de Ennio Morricone. No sax alto, ele brilha – ao lado do baixista-líder, do trompetista Collins e do sempre insinuante pianista McCormack – em recriações de dois originais jazzísticos: Boogie stop shuffle (7m30), de Charles Mingus, e Blues in Hoss' Flat (5m25), do saxofonista Frank Foster, que foi sucesso da orquestra de Count Basie nas décadas de 1950/1960. Battista também sola na suave Night flight (5m15), peça de autoria da dupla Eastwood-McCormack.

O trio Kyle-McCormack-Higginbottom (sem os sopros) oferece uma atraente versão de We see (7m), tema de Thelonious Monk. E o quinteto completa a setlist com os originais Rockin' Ronnie's (5m50) – homenagem ao melhor clube de jazz de Londres, o Ronnie Scott's – e Jarreau (6m10) – em memória do vocalista Al Jarreau, que morreu em janeiro último, aos 76 anos.

(A faixa Soulful times pode ser ouvida em: http://www.qobuz.com/ie-en/album/soulful-times-kyle-eastwood/3149027004213)

(Samples do álbum em: http://www.qobuz.com/gb-en/album/in-transit-bonus-track-version-kyle-eastwood/3149027003513)