Jazz

Verve lança álbum inédito de Ella Fitzgerald

Luiz Orlando Carneiro, Jornal do Brasil

No fim deste ano do centenário de Ella Fitzgerald (1917-1996) a Verve Records vem de lançar, nas lojas virtuais, um registro fonográfico inédito, imperdível, daquela que foi a grande voz da história do jazz, e também a diva do songbookamericano, durante quase cinco décadas.

Ella at Zardi's contém 21 faixas, captadas em dois sets, numa noite de fevereiro de 1956, no clube Zardi's Jazzland, então situado no Hollywood Boulevard, Los Angeles. A vocalista apresentou-se, naquela ocasião, à frente de um trio com Don Abney (piano), Vernon Alley (baixo) e Frank Capp (bateria), dias antes de gravar para a Verve o best seller LP Ella Fitzgerald Sings the Cole Porter Song Book, com orquestra, e uma seção rítmica de luxo (Barney Kessel, guitarra; Joe Mondragon, baixo; Alvin Stoller, bateria).

'Ella at Zardi's' foi gravado ao vivo no clube de Hollywood em 1956
'Ella at Zardi's' foi gravado ao vivo no clube de Hollywood em 1956

O sucesso daquele primeiro álbum da cantora para o selo de Norman Granz relegou ao arquivo e ao esquecimento os tapes do Zardi's por mais de seis décadas. Mas a gravação, em termos de som e conteúdo, é “a thing of beauty” e, portanto, “a joy forever”, como diria Keats. E como, de certa forma, escreveu o editor do caderno de artes do Buffalo News, Jeff Simon, ao comentar Ella at Zardi's: “Os songbooks, com frequência, taparam o sol na sua (de Ella Fitzgerald) carreira, mas ouvir esse registro pela primeira vez, depois de tantos anos, é alegria pura (pure joy). Não importa a limitação do pianista e uma certa subserviência (…). Ela está charmosa, adorável e musicalmente espetacular. É uma magnífica adição à discografia de Ella”.

Nas liner notes do CD, o veterano crítico Kirk Silsbee observa: “Podemos ouvir uma cantora fluida e jovial operando de maneira quase vertiginosa, conseguindo 'suingar' em quase todos os números, não importando o andamento”.

É claro que parte da plateia heterogênea daquele clube de Hollywood estava a fim de ouvir a já badalada vocalista cantar, mais ou menos à la lettre, sucessos românticos daquela época como Cry me a river (4m05), Tenderly (3m15) e Gone with the wind (4m35).

Mas La Fitzgerald está realmente “vertiginosa” em pelo menos quatro peças desse registro recuperado, nas quais confirma que era imbatível em matéria de scat singing (improvisação vocal em que as letras das músicas são substituídas por um silabar onomatopaico). São elas: uma versão espetacular de Airmail special (5m15), tema de Benny Goodman-Charlie Christian de 1941; Bernie's tune (3m55), uma das composições favoritas do inesquecível quarteto Gerry Mulligan-Chet Baker da década de 1950; In a mellow tone (2m50), clássico de Duke Ellington; How high the moon (3m35), com o tempo dobrado depois de 1m20.

Outros destaques dos dois sets de Ella Fitzgerald no Zardi's, naquela longínqua noite de fevereiro de 1956, são: a versão bem hot de Joe Williams' blues (2m45); as interpretações de My heart belongs to daddy (3m10), de Cole Porter, e I've got a crush on you (3m15), dos irmãos Gershwin.

(Samples de Ella at Zardi's em: itunes.apple.com/us/album/ella-at-zardis-live-at-zardis-1956/1302213339)