Jazz

Houston Person e o teste do tempo

Luiz Orlando Carneiro, Jornal do Brasil
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O veterano saxofonista tenor Houston Person, 83 anos, ainda muito ativo e criativo, é admirado na cena jazzística como cultor daquele tipo de bebop de tempero bem soul na tradição dos grandes Gene Ammons (1925-74) e Eddie “Lockjaw” Davis (1922-86). Nas notas que escreveu para o seu recém-lançado álbum Rain or Shine (HighNote), gravado em junho último, ele mesmo admite: “Poucas pessoas, nos dias de hoje, estão ligadas a esse tipo de groove”.

Só que – como disse uma vez o saudoso e “vanguardista” pianista Andrew Hill (1931-2007) - “contemporâneo não é apenas o que é novo, mas algo que resiste ao teste do tempo”. E este é o caso da música documentada pelos founding fathers dos diversos estilos do jazz, de Louis Armstrong a Ornette Coleman, passando por Duke Ellington, Earl Hines e Charlie Parker. E – guardadas as devidas proporções – de músicos que procuram recriar em alto nível (e não apenas reviver) a mainstream do jazz.

Saxofonista grava 'Rain or shine', seu 18ª álbum para a HighNote

E este é também o caso de Houston Person, que começou a despertar a atenção do público e da crítica especializada como membro do combo do organista Johnny “Hammond” Smith, entre 1960 e 1963. Nos anos seguintes, até 1972, gravou uma dezena de discos para o selo Prestige. Entre 1975 e 1995 foi partner da então muito popular vocalista Etta Jones em nove álbuns para a etiqueta Muse. Neste século, fez 18 registros para o selo HighNote, dos quais os dois últimos foram Chemistry, do ano passado, em duo com o magistral contrabaixista Ron Carter, e agora Rain or Shine.

Neste novo CD o tenorista lidera um quinteto básico integrado por Lafayette Harris (piano), Rodney Jones (guitarra), Matthew Parrish (baixo) e Vincent Ector (bateria). O conjunto vira sexteto em cinco das nove faixas com a adição de um ilustre convidado, o cornetista Warren Vaché.

setlist começa com a conhecida balada Come rain or come shine (6m20), de Harold Arlen, cuja melodia é “acariciada” por Person com um sopro vaporoso, murmurante, e comentada a seguir por Vaché. A parte decididamente romântica do programa (sem a intervenção do cornetista) inclui ainda: Everything must change (7m), do repertório de Nina Simone; Danny boy (6m), tema folclórico irlandês; e Never let me go (5m10), interpretada pelo saxofonista em quarteto.

O núcleo bluesysoul, às vezes funky, do novo lançamento da HighNote é formado por três faixas de ritmo contagiante: 132nd and Madison (7m05), de autoria do underrated pianista novaiorquino Onaje Allan Gumbs, e cujo título se refere à zona mais jazzística do Harlem; Learning the blues (6m15), canção dos tempos de Frank Sinatra; Soupbone (7m15), tema do guitarrista Rodney Jones.

O sempre melódico Warren Vaché empresta a sua classe muito especial a todos esses números, assim como a Our day will come (5m45), que recebe um tratamento dançante, no ritmo da bossa nova, com realce para o interplay entre o safoxofonista-líder e o cornetista.

(Samples de Rain or Shine em: itunes.apple.com/us/album/rain-or-shine/1295135468)