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Destaque para o guitarrista Julian Lage

Luiz Orlando Carneiro, Jornal do Brasil
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A capa e a principal matéria da edição de março da revista Downbeat são dedicadas a Julian Lage, a pretexto do recém-lançado álbum Modern Lore (Mack Avenue), no qual o guitarrista de 30 anos comanda novamente o seu trio predileto integrado por Scott Colley (baixo) e Kenny Wollesen (bateria).

Ouvi Julian Lage pela primeira vez em 2005, no saudoso Festival Tudo é Jazz, em Ouro Preto. Ele tinha 18 anos, e deixou o público atônito com o seu domínio das seis cordas, tocando em duo com outro prodígio, o pianista Taylor Eigsti. O guitarrista tinha sido lançado pelo grande vibrafonista Gary Burton em duas sessões para o selo Concord quando não tinha ainda comemorado o 16º aniversário: Generations, 2003, com o pianista Makoto Ozone; Next Generation, 2004, com o pianista russo Vadim Neseloviski. Depois, tornou-se titular do new quartet de Burton (Scott Colley, baixo; Antonio Sanchez, bateria), bem representado em dois CDs da Mack Avenue: Common Ground (2011) e Guided Tour (2013). Também em 2013, ao lado do eminente pianista Fred Hersch, em duo, Julian Lage gravou ao vivo, no bar jazzístico do Hotel Kitano, Nova York, o sofisticado Free Flying (Palmetto).

Ex-garoto prodígio lança Modern Lore, e ganha capa da Downbeat

Agora, em Modern Lore, o guitarrista-compositor apresenta-se num programa em que interpreta 11 peças de sua lavra, das quais quatro apenas com o trio, e as demais com coloração sônica sublinhada pelo tecladista Tyler Chester. À Fender Telecaster de Lage soma-se o violão do também produtor do novo álbum, Jesse Harris, em Whatever you say, Henry (4m10).

As três faixas iniciais dão as condições de “temperatura e pressão” da maioria da setlist, que tem como referência a “Americana” (country, folk, blues, rock): a exuberante The ramble (3m55), com ênfase no compasso 6/8; Atlantic limited (3m50), em tempo médio; General thunder (5m25), de melodia tipicamente country em contraste com acentuado back beat típico do rock.

Dentre as demais faixas merecem especial atenção: Roger the dodger (4m15), com introdução bem percussiva para uma leitura relaxada dos blues pelo guitarrista-líder; as meditativas, Wordsmith (4m) e Revelry (3m30); e a inesperada Earth science (2m15), a partir de um fragmento melódico típico dos temas “harmolódicos” de Ornette Coleman, com o trio Lage-Colley-Wollesen engajado num voo vertiginoso.

Como anotou Mike Flynn, da revista inglesa JazzWise, Julian Lage explora, com engenho e arte, os fundamentos da guitarra moderna tais como definidos por Cheat Atkins, Pat Metheny e Bill Frisell. E “é um raro prazer ouvir o twang característico do instrumento sem reverberação, delay ou distorção – já que Lage extrai um vasto léxico de sons usando apenas os seus dedos, sem necessidade de esconder-se atrás de efeitos”.

No artigo-entrevista da próxima edição da Downbeat, Phillip Lutz define o CD Modern Lore como “um redemoinho virtuosístico de texturas estridentes e grooves corajosos que gritam 'Americana' com um twist pós-moderno”.

(Samples de Modern Lore em: itunes.apple.com/ca/album/modern-lore/1308388201)