Jornal do Brasil

Juventude de Fé

Natal: expansão do capitalismo ou chegada do menino Jesus?

Walmyr Junior*, Jornal do Brasil

Vivemos neste último fim de semana a renovação do tempo litúrgico da Igreja Católica. Os ciclos de mudanças rituais dos tempos litúrgicos configuram um itinerário espiritual. Esse novo é chamado Advento e nos leva a viver em cada momento dado na vida da igreja a mística do projeto de Jesus. Ela nos possibilita uma autêntica e reflexiva leitura dos nossos atos e práticas no cotidiano de nossas vidas.

Porém, muito bem sabemos que o espirito natalino vem perdendo suas origens e a sua práxis. Infelizmente a festa natalina caiu nas armadilhas do capitalismo e fomenta uma economia pautada no consumo pelo consumo perdendo todo o sentido do que de é fato a vinda do menino Deus.

O Natal tem se apresentado muito mais como a festa do interesse materialista de dar e receber presente. Esse simbolismo é fruto de uma herança mercantilista que coloca o consumo na centralidade da festa, ou seja, ao invés de resgatar o conceito real da sua comemoração, essa troca de presentes se torna generalizada e tem atrás de si um conjunto de interesses, proporcionando o erro de dar presente pelo interesse de ganhar outro ou até de ‘bajular’ alguém.

Como diz Frei Beto: O menino Deus quer nos libertar do proselitismo: “em vez de dar presentes, nos faremos presentes junto aos famintos, carentes e excluídos”.

Ao invés de construir as relações afetivas no imaginário do interesse do presente e na ganância do ‘ter e poder’, devemos nos colocar nas vidas dos outros como sinal de alegria e transformação, como sinal de amor e caridade. Devemos nos colocar em prol da solidariedade e do afeto desinteressado. Ou façamos isso, ou vamos cair numa espécie de fetiche capitalista do comprar e do comprar só para agradar.  

Percebo que o capitalismo manipula sentimentos e produz contra valores visando aumentar o mercado consumidor. Isso é fatídico. Tudo tem se tornado mercadoria, até os sentimentos e emoções.

O nascimento de Jesus religa a humanidade à dinâmica de relação com o criador. O sentido do Natal está ai. Retornar nosso olhar para Deus e sua revelação e a partir dela encarnar em nossa vida o projeto de amor que Jesus deixou para a humanidade.

O Natal é tempo de conversão, é tempo de libertação, é tempo de deixar-nos inebriar pela justiça social.

*Walmyr Junior é morador de Marcílio Dias, no conjunto de favelas da Maré, é professor, membro do MNU e do Coletivo Enegrecer. Atuou como Conselheiro Nacional de Juventude (Conjuve). Integra a Pastoral Universitária da PUC-Rio. Representou a sociedade civil no encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ