Jornal do Brasil

Leonardo Boff

À cultura da violência opomos a cultura da paz

Leonardo Boff, Jornal do Brasil

Meu sentimento do mundo me diz que vivemos dentro de uma violência mundial sistêmica. Seria longo enumerar todos os tipos de violência. Mas ela é tão globalizada que o bispo de Roma, o Papa Francisco  afirmou por três vezes, que já estamos dentro da terceira guerra mundial. Não é impossível que a nova guerra-fria entre os USA, Rússia e China acabe provocando um conflito nuclear.

Se  esta tragédia ocorre,  será o fim  do sistema-vida e da  espécie humana. Este estado de permanente beligerância se deriva da lógica do paradigma civilizatório que foi lentamente se formando durante séculos até chegar ao seu paroxismo nos nossos dias: a ilusão de o ser humano ser um “pequeno deus” que se coloca sobre as coisas para dominá-las e acumular benefícios, à custa da natureza e de nações inteiras. Perdemos a noção de nossa pertença à Terra e de que somos parte da natureza. Essa consciência nos levaria a uma confraternização com todos os seres desse belo planeta.

É urgente uma nova relação para com a Terra e para com a natureza, feita de sinergia, respeito, convivência, cuidado e sentido de responsabilidade coletiva.

Esta relação convivial sempre esteve viva em todas as culturas, do Ocidente e do Oriente, especialmente, em nossos povos originários que nutrem para com a Terra profundo respeito.

Na nossa cultura temos a figura paradigmática de São Francisco de Assis, atualizada pelo bispo de Roma, Francisco, em sua encíclica Laudato Si: cuidando da Casa Comum. Proclama o poverello de Assis “o santo padroeiro de todos os que estudam e trabalham no campo da ecologia...para ele qualquer criatura era uma irmã, unida a ele por laços de carinho. Por isso sentia-se chamado a cuidar de tudo o que existe”(n.10 e 11). Com certo humor recorda “que São Francisco  pedia que, no convento, se deixasse sempre uma parte do horto para as ervas silvestres crescerem” (n.12) pois elas a seu modo também louvam a Deus.

Esta atitude de enternecimento levava-o  a recolher as minhocas dos caminhos para não serem pisadas. Para São Francisco todos os seres  são animados e personalizados. Por intuição espiritual descobriu o que sabemos atualmente por via científica (Crick e Dawson, os que decifraram o DNA) que todos os viventes somos parentes, primos, irmãos e irmãs, por possuirmos o mesmo código genético de base.  Por isso chamava a todos de irmãos e irmãs: o sol, a lua, o lobo de Gubbio e até a morte.

Esta visão supera a cultura da violência e inaugura a cultura do cuidado e da paz. São Francisco realizou plenamente a esplêndida definição que a Carta da Terra encontrou para a paz: ”é aquela plenitude criada por relações corretas consigo mesmo, com as outras pessoas, outras culturas, outras vidas, com a Terra e com o Todo maior do qual somos parte”(n.16 ).

O Papa Francisco parece ter realizado as condições para a paz que por todas as partes prega e pessoalmente irradia. Ele expressou emotivamente um pensamento que sempre volta na encíclica: ”tudo está relacionado, e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma de suas criaturas e que nos une também com terna afeição, ao irmão Sol, à irmã Lua, ao irmão rio e à Mãe Terra”(n. 92).

Num outro lugar, encontrou a seguinte formulação, agora crítica: “É preciso revigorar a consciência de que somos uma única família humana. Não há fronteiras nem barreiras políticas ou sociais que permitam isolar-nos e, por isso mesmo, também não há espaço para a globalização da indiferença”(n.52)

Desta atitude de total abertura que a todos abraça e a ninguém exclui, nasceu uma imperturbável paz, sem medo e sem ameaças, paz de quem se sente sempre em casa com os pais, os irmãos, as irmãs e com todas as criaturas.

No lugar da violência coloca os fundamentos da cultura da paz: o amor, a capacidade de suportar as contradições, o perdão, a misericórdia e a reconciliação para além de qualquer pressuposição ou exigência prévia.

Ao abordar o tema da paz em sua encíclica. o bispo de Roma,  Francisco, repete o que Gandhi e outros mestres já disseram: ”a paz não é a ausência de guerra. A paz interior das pessoas tem muito a ver com o cuidado com a ecologia e com o bem comum, porque quando autenticamente vivida,  reflete-se num equilibrado estilo de vida, aliado com a capacidade de admiração que leva à profundidade da vida; a natureza está cheia de palavras de amor”(n.225). Num outro tópico assevera: ”a gratuidade nos leva a amar e a aceitar o vento, o Sol e as nuvens, embora não se submetam ao nosso controle; assim podemos falar de uma fraternidade universal”(n.228).

Com esta sua visão da paz e da gratuidade, ele representa um outro modo de ser-e-de-estar-no-mundo-com-os-outros, uma alternativa ao modo de ser  da modernidade que é estar fora  e acima da natureza e dos outros e não  junto com eles, convivendo na mesma Casa Comum.

A descoberta e a vivência desta irmandade cósmica nos ajudará a sair da crise atual, nos devolverá a inocência perdida  e nos  fará ter saudade do paraíso terrenal cujos sinais podemos antecipar.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu: Francisco de Assis e Francisco de Roma: a nova primavera na Igreja, Mar de Ideias, Rio 2015.