Maitê Proença

Deixa a pelada pra eles

Jornal do Brasil
Maitê Proença

O futebol arrebata o mundo. Que nível a coisa tomou, subiu-se um degrau e como ficaram inesperadas as partidas. Batem corações de todas as origens. Mas não foi sempre assim, o football já foi deleite de grã-finos apenas. Em 1900, quando o jogo chegou ao Brasil, os jogos eram chamados de matches, goleiros de keepers, e pasmem,  não havia negros em campo, não caÍa bem às hipocrisias da época. Mas havia mulheres, ainda que só na assistência e devidamente adornadas para envaidecer os maridos, por quem eram, invariavelmente, acompanhadas.  

Ao se tornar popular, o futebol baniu as moças dos estádios, e, tenho para mim, que os homens preferiram assim, ficando mais livres para as suas manifestações espontâneas. Pena, perdemos um cenário para desfilar chapéus. E perdemos mais.  

Além de não termos nada que se assemelhe a uma pelada batida com amigos num campo surrado, nós mulheres fomos afastadas, por tempo demais, dos efeitos benéficos do futebol espetáculo. Onde aprender a vida? Na tensão do trabalho, no corre corre da repetição diária, nas redes sociais, no salão? O convívio com a bola tem me mostrado que futebol é filosofia, é o viver em estado bruto, é matéria para se pensar. Brincando ou assistindo a gente aprende que a sorte é mais determinante do que o mérito, que o ladrão de hoje é o aliado de amanhã, que na vitória ou derrota a vida segue soberana, sem mudar seu curso porque nós não gostamos. O mundo se encontra em trânsito de uma era para outra e ninguém entende patavina. 

É bom que a Copa esteja aí para lembrar os fatos como sempre foram. E é ótimo que as mulheres tenham voltado aos campos neste momento e tão diferentes dos bibelôs de outrora. Nas arquibancadas há iranianas sem véu, há meninas de toda idade e cor, e cresce o numero de repórteres cobrindo o evento. Elas recebem cantadas, insultos, mas não se intimidam. 

Uma recente campanha, lançada por jornalistas do esporte, aborda o assédio. A ideia surgiu com Bruna Dealtry, do “Esporte Interativo”, após ter sido beijada à força por um torcedor durante uma transmissão ao vivo. Aderiram jornalistas, como Fernanda Gentil, Cris Dias e Carol Barcellos, e o movimento #deixaelatrabalhar só faz crescer. Rapazes estúpidos têm seu vídeo viralizado, ao fazerem coro sobre as partes íntimas de uma loura desconhecedora do teor da “brincadeira”. O machismo não é exclusividade do futebol, mas talvez nele se manifeste com mais virulência, afinal, era tão bom sem elas... Outra repórter foi assediada esta semana quando se preparava para entrar no ar. Profissionais relatam insinuações de que seus furos são conseguidos com métodos pouco profissionais, e as moças são obrigadas a trabalhar dobrado para provar que não estão ali de enfeite. 

Ainda assim, sinto pelos rapazes. Não foram preparados para o que está por vir. Acontecerá um corte repentino em seus hábitos milenares, a internet cuidará disso, e é pra ontem. Para piorar, as moças aterrissaram onde eles sonhavam ser o seu último reduto. Aonde irão extravasar suas cafajestadas cabeludas? Apoio com veemência o #deixaelatrabalhar, e chega de assédio!  Mas vamos dar uma colher? Sugiro que a pelada siga sendo só deles. Quando acabar a Copa e a rotina voltar aborrecida, deixemos os machos escaparem nas quartas à noite. Como medida cautelar. 

Eles necessitam de uma porta dos fundos para que não se tomem de selvagerias nos estádios, nas ruas, dentro de casa. Que os meninos possam se divertir com outros meninos sem cobranças de nossa parte. Se os privarmos do deleite, nossos machos se transformarão em alcoólatras descompensados, em cocainômanos contumazes, em galinhas compulsivos, em agressores que talvez não fossem, se pudessem escoar livremente suas impudências no futebol das várzeas, na cervejada e naquela conversa sem travas que rola em seguida, tão grossa quanto é inocente.