Jornal do Brasil

Marcus Ianoni

A Câmara salvará Temer novamente!?

Marcus Ianoni, Jornal do Brasil

Em agosto, o plenário da Câmara dos Deputados não obteve os dois terços de votos necessários, entre as 513 cadeiras existentes, para autorizar que o presidente Temer fosse processado pelo STF por corrupção passiva, crime que lhe fora atribuído por uma denúncia da Procuradoria Geral da República (PGR). Esta semana, será votado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da casa o relatório do deputado Bonifácio de Andrada (PSDB-MG), que recomenda o arquivamento da nova denúncia da PGR contra o presidente, desta vez vinda em dose dupla, obstrução da justiça e organização criminosa.  Ao que tudo indica, a Câmara salvará Temer novamente. Será isso mesmo?

As duas denúncias são desdobramentos dos áudios divulgados por Joesley Batista, proprietário da JBS, entre eles um gravado no próprio Palácio do Jaburu, documentando uma conversa do empresário com o presidente. Mas, após a posse de Temer, temos visto que as forças que apoiaram a deposição de Dilma vêm se dividindo em relação ao combate à corrupção. A relação de forças, considerando as instituições políticas, o mercado e na sociedade, evoluiu no sentido de frear o ímpeto salvacionista do bloco repressivo constituído pela Justiça (Moro e STF), PGR e Polícia-Federal.

O acontecimento mais recente foi a divulgação, nos últimos dias, pelo site da Câmara dos Deputados, de vídeos e áudios da delação premiada de Lúcio Funaro, operador do PMDB, no qual novamente Temer é mencionado como beneficiário de propinas para distribuir entre seus aliados. A disputa de interesses na esfera institucional chega a uma temperatura alta, às vésperas da nova votação, abrindo-se uma frente de atrito entre Rodrigo Maia, primeiro nome na linha sucessória em caso de vacância presidencial, e Michel Temer, em função da divulgação dos depoimentos de Funaro.

Em meio a toda essa balbúrdia institucional – não comentarei aqui o caso STF/Senado/Aécio Neves –, não há como engavetar a pergunta que não quer calar: onde estão os paladinos do combate à corrupção, a direita dos protestos das ruas e dos panelaços das varandas? Uma chave para entender a indignação seletiva é que o mercado quer ordem, quer a ordem liberal que Temer esforça-se por promover com suas políticas orientadas para o mercado. Não havendo efetivo interesse do poder econômico, essa direita-classe-média-tradicional, saída do armário nos últimos anos, não tem organicidade nenhuma em relação ao combate à corrupção, tal qual teve e ainda tem, essa sim profunda, com a rejeição ao petismo, símbolo ameaçador da hierarquia social erguida sobre a desigualdade estrutural, que remonta à escravidão.

Em todo o caso, novamente a Câmara dos Deputados, em tese um grande símbolo da democracia representativa, ficará nua diante da nação. Salvará mesmo Temer, para a alegria dos investidores, e prosseguirá abrindo mão da legitimidade do sistema representativo em nome da governabilidade ultraliberal? A democracia e a legitimidade andam muito custosas para a minoria beneficiada pelo capitalismo financeirizado. A representação democrática está em rota oligárquica. 

* Marcus Ianoni é professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), pesquisador do INCT-PPED, realizou estágio de pós-doutorado na Universidade de Oxford e estuda as relações entre Política e Economia