Mirante do Rio

Quanto vale a cultura?

Jornal do Brasil
Mirante do Rio
Eduarda La Rocque

Quando a gente acha que já está tudo muito ruim, ainda pode piorar. A decisão recente do governo federal de tirar recursos da cultura, do esporte e lazer para armar ainda mais a segurança pública é de uma miopia atroz. Vai na contramão de tudo que a cultura pode representar para a redução da violência.

O Estado do Rio investiu bilhões em segurança pública nos últimos vinte anos, contratou policiais, investiu em estrutura, esta que hoje desaba com a falência do estado. Mas com isso aprendemos de vez uma coisa, não é aumentando o policiamento ostensivo que diminuímos a violência. Ao contrário, aumenta a morte de policiais, aumenta o confronto aberto, aumenta a morte de civis. A melhor forma de contê-la é através da prevenção, em atividades como cultura, esporte e empreendedorismo, alternativas não só de lazer, de catarse; e mais, a cultura e as artes, as festas populares ainda são uma fonte renda para as periferias. 

A situação de violência urbana no Rio é lastimável. Nem no pior cenário pré-olímpico poderíamos imaginar retroceder tanto. Mas não é mais tempo de lamentar a oportunidade perdida, e sim aproveitar os ativos remanescentes e toda a infraestrutura dos jogos para a revitalização urbana a partir do que a cidade tem de melhor. Nossa cultura. Vista de uma forma holística, o jeito carioca de ser. Englobando os mais diversos movimentos artísticos, a cultura popular, a música, a dança, o samba, o funk, o morro, a praia e a convivência democrática que ela propicia, o frescobol, a ode ao esporte e ao corpo, o nosso jeito de receber turistas, o amor e orgulho que nós cariocas temos por nossas matas e belezas naturais, a convivência com a diversidade. 

A cultura carioca é o seu maior patrimônio, não apenas no sentido humano de querer vencer a violência, mas no sentido econômico de produção de renda, especialmente tendo em vista os investimentos feitos em infra estrutura para grandes e médios eventos. E é exatamente da cultura e do esporte que o governo quer tirar dinheiro para vencer a violência? Parece uma brincadeira de mau gosto. Para o Rio sair do buraco, temos que enfrentar antes de tudo a violência, o que nos remete inevitavelmente à ineficácia da política de repressão às drogas. 

Mas nos atendo a questões estaduais, temos que começar por resolver de uma forma sustentável a questão da segurança, que não é só responsabilidade pública. A prevenção é mais eficiente que a repressão. Instituir um regime de segurança cidadã é a saída. Não será um salvador da pátria que vai tirar o Rio da crise. A sociedade como um todo tem que estar comprometida num plano de desenvolvimento territorial, sustentável e integrado, de longo prazo, para o Estado do Rio, suas regiões e cidades. Começando por limpar a nossa corja política da cena. Não só os jogadores, mas também as regras do jogo. As eleições estão aí. Haverá a tão sonhada renovação? 

Quando penso no valor da cultura, lembro do Amir Haddad contando que, depois de uma das apresentações do seu grupo de teatro, o Tá na Rua, um morador de rua lhe deu, bem embrulhadinho, uma nota de vinte reais e fez questão que ele recebesse. Aqueles vinte reais eram tudo o que ele tinha, e ele deu tudo o que tinha para tentar demonstrar o valor daquele trabalho, que o diretor e os atores estavam fazendo, em sua vida. A cultura não tem preço, ela é mais do que uma relação financeira pode revelar, a cultura é a relação que os seres humanos estabelecem com a vida, é o fundamento, a base de tudo, o sentido, o valor. 

Falando em desprezo à cultura, me despeço hoje desta coluna sem perder a oportunidade de esbravejar mais uma vez por um movimento intitulado Renuncia Crivella! Ninguém sabe mesmo onde você anda.  Por novas eleições na nossa cidade. Passamos quatro anos com o Pezão doente, inerte diante de um Estado falido. Não sobreviveremos ao mesmo na nossa cidade, tenha dignidade, Renuncia Crivella!