O Outro Lado da Moeda

Quando a economia encontra a política

Jornal do Brasil
O Outro Lado da Moeda
Renê Garcia Jr.

Tem sido comum nos últimos meses o uso da frase “A economia se descolou da política”, como uma expressão de que a mudança na condução do governo federal e o alívio das incertezas provocadas pelo governo anterior são uma página virada. De fato, quando analisamos números do desempenho fiscal do governo central percebemos um pequeno alívio. A trajetória de desequilíbrio fiscal ainda é explosiva, e suas consequências e origens já são de amplo conhecimento, mas o cenário econômico para 2018 aparentemente está dado. 

No entanto, é praticamente unânime a opinião de que é muito difícil traçar um cenário para 2019 e 2020. Os motivos são: 1) todos os governos anteriores aumentaram os gastos em seu último ano e, conforme sinalizou o ex-prefeito César Maia em entrevista publicada na segunda-feira, essa é a tendência para esse ano também; 2) há uma conjunção de fatores de natureza externa hoje francamente favorável, mas que pode mudar.  

De positivo a percepção de que apesar do forte trauma vivenciado no último triênio (queda acumulada de 9,5% no PIB), a economia real do Brasil esta se recuperando, como confirmado pelo PIB de 2017, divulgado na semana passada. A queda na taxa de juros realizada ao longo de 2017 aliviou parcialmente os encargos das famílias e das empresas com juros, mesmo com a redução na oferta de credito bancário, oficial e privado. 

Cenário de 2018 está dado

De acordo com as previsões dos principais centros de pesquisa e dos departamentos econômicos de instituições financeiras e empresas de consultoria, a inflação deve ficar em torno de 4%, ligeiramente mais alta do que a identificada em 2017 (3%). Haverá uma pequena desvalorização no câmbio (R$ 3,45) e a taxa de juros deve permanecer estável, em 6,75%. O consumo das famílias (3,4%) será superior ao verificado em 2017 e haverá um pequeno aumento nos investimentos (Formação Bruta de Capital Fixo), que deve alcançar 3,2% no ano, comparado a 2017. O ambiente externo também deve ser confortável, com déficit em conta corrente na faixa dos 2% do PIB, depois de passar de 4,2% em 2014.

O professor José Oreiro da UNB, em seu blog, ao comentar sobre a expectativa quanto ao comportamento da taxa básica de juros para 2018 afirmou: “o Banco Central reduziu a meta da Selic na reunião do Copom para 6,75% a.a. No comunicado pós-reunião, o Copom sinalizou que, mantido o quadro atual, deverá encerrar o ciclo de flexibilização da política monetária em março, na sua próxima reunião. Ao que tudo indica será um novo corte de 0,25%, fazendo com que a meta da Selic alcance a mínima histórica de 6,5% a.a. 

Ao se confirmar esse cenário, e supondo uma inflação de 3,5% para os próximos 12 meses ao longo do ano de 2018, teremos uma selic real de 2,89% a.a. Trata-se de um valor bastante próximo dos níveis observados nos países desenvolvidos, levando-se em conta o prêmio de risco país, que atualmente está em torno de 200 pontos base”.

Qual a dificuldade para a formulação de cenários prospectivos?

Primeiro: não se sabe o nível de compromisso que o vencedor das eleições presidenciais de 2018 terá com a implementação de reformas estruturais. Segundo: também há dúvidas sobre o que vem de novo na representação parlamentar federal. Terceiro: qual será o compromisso do poder judiciário em combater seus privilégios e qual será o comportamento desse poder com o compromisso de assegurar o bom exercício da justiça sobre aqueles que detêm foro especial por exercício de função pública. Quarto: como a população ira reagir diante de eventuais frustrações com o processo eleitoral de 2018. 

Daí a necessidade de que o pacto político a ser firmado nas eleições de 2018 tenha cláusulas que assegurem o combate à corrupção, às práticas de compadrio e à ação extrativista de castas de privilegiados. Ao mesmo tempo, deve assegurar as bases de um processo de crescimento econômico com justiça social e combate às desigualdades.  

Qualquer que seja o vencedor, a realidade econômica e a internalização do potencial destrutivo da adoção de políticas públicas inconsistentes sobre o equilíbrio político e a permanência no poder deve favorecer um clima de mudança na forma de se relacionar com as armadilhas do presidencialismo de coalizão. É o que veremos nos programas de governo e no próximo governante eleito.