O Outro Lado da Moeda

A longa agonia da economia brasileira

Jornal do Brasil
O Outro Lado da Moeda
Renê Garcia Jr.

Os indicadores de desempenho da economia brasileira voltam a revelar sinais de anomalia e fragilidade. 

Na última semana, foram divulgados os números da evolução do Índice de Atividade Econômica do Banco Central do Brasil - IBC-Br -, que indicou queda de 0,74% em março e de 0,13% no ano , quando comparado com o mês de fevereiro, o que levou a atividade do primeiro trimestre a um retrocesso em relação aos três últimos meses do ano passado, sendo a primeira reversão depois de quatro trimestres de evolução positiva. No acumulado dos últimos 12 meses, a evolução do Produto Interno Bruto (PIB) está em 1,06% a.a., o que é praticamente o mesmo número percentual apresentado para o período de janeiro a dezembro de 2017. 

Dessa forma, o IBC-Br, projetado para tentar replicar o comportamento do PIB, caiu 0,13% em relação ao último trimestre de 2017. 

Mantido esse comportamento anômalo, dificilmente o PIB de 2018 terá uma evolução anual expressiva, quando comparado com o desempenho modesto de 1% em 2017. Revisões em projeções e avaliações de organismos internacionais já sugerem um crescimento do PIB no ano corrente próximo ou inferior a 2.3% a.a. 

Diversos fatores e variáveis conspiram para ajudar na explicação desse comportamento. Contudo, no geral, tentativas de alerta foram emitidas para esse cenário, por essa coluna ao longo das últimas semanas, quando ficou claro que as fragilidades do mercado de trabalho tinham um componente estrutural dominante, no qual pequenas oscilações mensais “favoráveis” não representavam fato relevante a ponto de reverter a dramaticidade do quadro. 

Hoje, praticamente 14 milhões de trabalhadores estão desempregados, que, somados aos trabalhadores apelidados de “empreendedores auto empregados”, perfazem um total de quase 28 milhões de brasileiros, ou, seja, um terço da população economicamente ativa disponível. 

Mesmo operando com uma razoável capacidade produtiva ociosa em diversos ramos da atividade econômica, a retomada observada no ano passado está vinculada à ligeira melhora nos indicadores de consumo, componente mais importante da chamada “demanda agregada”, que é o termo técnico que os economistas usam para revelar o que está sendo, de fato, a cada momento do tempo gasto para a aquisição de bens, serviços, compra de equipamentos, formação de estoques, construção de fábricas, imóveis, estradas e gastos do governo. A isso, soma-se a diferença entre os valores (saldo) de tudo que é exportado subtraído dos valores dos importados. 

A frustração com a reunião do Copom - O juro que não caiu! 

A elevada volatilidade no mercado cambial e os movimentos de alta na taxa de juros de longo prazo são em parte os responsáveis pela decisão do Banco Central na sua última reunião, que manteve a taxa de juros básica - Selic - em 6.5 % a.a. 

Como já havíamos comentado em nossa coluna anterior, esse movimento conservador, frente às expectativas do mercado, pode ser interpretado como um sinal de que a política monetária, daqui para frente, incorporará um peso maior às mudanças do cenário externo, seja pelo canal do movimento do Fed - banco central dos Estados Unidos -, seja pela eventual corrida de investidores de curto prazo em busca de títulos de países emergentes, como, aliás, já salientado em várias publicações internacionais, alertando para o possível efeito de contágio da Argentina com os emergentes e possíveis movimentos bruscos de desvalorização do real, peso argentino e da lira turca. Em apenas uma semana, as citadas duas moedas sofreram uma desvalorização de quase 12%. 

Movimento semelhante foi observado no mercado que negocia os contratos com cláusula de troca de risco, os chamados swap de default de crédito (CDS, na sigla em inglês, uma espécie de apólice de seguro contra eventual calote). O contrato de 5 anos na última sexta feira estava cotado a 205 pontos-base, contra 195 pontos na véspera, ou seja, o maior nível desde 17 de agosto do ano passado. 

Ainda é cedo para projetar os possíveis impactos da desvalorização do real sobre o nível geral de preços - inflação. Sabemos que o primeiro efeito de curto prazo será um aumento expressivo no preço dos combustíveis, talvez de forma menos suave, na medida em que se soma ao movimento da desvalorização do real a alta no preço do barril do petróleo no mercado internacional. 

É possível, ainda, que o saldo líquido dos movimentos de aumento de alguns preços e a queda nas vendas indiquem uma contração maior na atividade produtiva, com recuo nas projeções de evolução futura da economia, com um impacto relativamente marginal na taxa de inflação, aproximem o número anual da meta fixada: 3,5% a.a. 

Mas o principal efeito a médio prazo é o de zerar no ano as chances de um crescimento maior do PIB, o que também significa que o atual quadro de desemprego e fragilidade encontrada no mercado de trabalho deve avançar pelo ano de 2018, e será prolongado ao próximo ano. 

O fato positivo a destacar no trimestre, quando comparado com igual período do ano anterior, está relacionado a uma melhora discreta nos indicadores de rentabilidade das companhias. 

O período de janeiro a março de 2018 apresentou crescimento de 10,06% nas receitas líquidas, com aumento de 10,5% nos custos dos produtos e serviços adquiridos, e também aumento de 15,8% nos lucros. 

No entanto, as margens de lucro ainda se encontram praticamente as mesmas, sendo o diferencial atribuído à ligeira redução nas despesas com o pagamento de juros por empréstimos e financiamentos. 

A taxa de câmbio que aleija e o juro que mata

Durante muitos anos, as desvalorizações cambiais foram os grandes vilões de processos de desequilíbrios orçamentários e mecanismos detonadores de in? ação, devido às fragilidades no balanço de pagamentos e ao elevado comprometimento da dívida pública com títulos atrelados ao dólar, aliado, ainda, às fragilidades das reservas internacionais. 

Hoje é o oposto. O Brasil é detentor de um volume bruto de reservas internacionais de quase US$ 380 bilhões, que, mesmo deduzidos os valores com a exposição do Banco Central, com os swaps cambiais, ainda é um volume recorde. 

O endividamento total da economia brasileira atrelado a indexadores em câmbio é próximo a 16%, contra 64 % da Argentina e 58 % do México, o que, em tese, não representa um problema adicional, se uma eventual desvalorização mais expressiva do real vier a acontecer nos próximos meses, em decorrência de um clima de deterioração das expectativas dos agentes econômicos frente ao curso das campanhas políticas e do avançar do quadro eleitoral.

No entanto, o sinal emitido pelo Banco Central, ao manter a taxa Selic em 6,5% a.a., fez de imediato que as taxas longas (maior prazo) tivessem uma imediata elevação - cerca de 1% a.a. em contratos com vencimento em 2021, o que, na prática, revela que o spread bancário e o custo efetivo de empréstimos junto ao sistema bancário terá uma alta de alguns pontos no futuro, impactando diretamente no custo das rolagens dos financiamentos as famílias e nas taxas de juros praticadas para as empresas. 

Em síntese, exceto por um possível movimento dos bancos como, por exemplo, oferta de um expressivo programa de renegociação de dívidas e reescalonamento de prazos e encargos aos devedores de sua carteira de dívidas vencidas e já provisionadas, dificilmente a recuperação da economia brasileira terá vida longa, sendo certo somente o aumento nos números de “negativados” nos sistemas de cobrança.