O Outro Lado da Moeda

As tentações totalitárias em três vertentes

Jornal do Brasil
O Outro Lado da Moeda
Renê Garcia Jr.

A recente paralisação dos caminhoneiros e os seus diversos e negativos impactos não se resumem somente à área econômica como os efeitos de primeira ordem sobre o nível de atividade, produção, comercialização e exportações. Ainda que, ainda não seja possível, estimar com clareza o somatório de danos de tal movimento em toda a sua extensão, sendo crível somente ter uma expectativa aproximada, sobre o desempenho do PIB no segundo trimestre, paulatinamente, está sendo formado um conjunto de opiniões que expressam a tese de que tais movimentos possam contribuir para que a taxa anual de variação do indicador do produto interno bruto, para 2018, venha a sofrer uma deterioração em relação às expectativas de início de ano e agora passe a oscilar entre uma previsão pessimista de 1,6% a.a. e uma mais otimista de 2,2% a.a. 

No entanto, o principal efeito da paralisação foi o de tencionar o papel das instituições e apresentar um cenário de caos e anarquia, com evocações e frases de apelo, com cunho e teor protofascistas. 

O Brasil vive um período de grandes incertezas, onde o medo e a insegurança de uma parcela da população contribuem para o crescimento de elegias de repulsa à democracia, com sinais de tentações antidemocráticas, como retrata a revista The Economist em sua última edição.

Para entendermos melhor o significado de tais movimentos, faremos uso de alguns conceitos, sendo, o primeiro deles, extraí- do da publicação de Amartya Sen - Prêmio Nobel de Economia em 1998 -, “A Democracia como um Valor Universal” - 1999. No referido texto, o Nobel indiano faz a seguinte indagação: “O que é exatamente democracia?”

Amartya Sen assim responde: “Não devemos identificar democracia com governo da maioria. A democracia tem demandas complexas, o que certamente inclui o voto, assim como respeito aos resultados eleitorais, mas também requer a proteção das liberdades e direitos, respeito aos títulos legais e à garantia da livre discussão e da distribuição sem censura de notícias e comentários justos. Mesmo as eleições podem ser grandemente danosas se ocorrerem sem que os diferentes lados tenham oportunidade adequada para apresentar seus respectivos anseios, ou sem que o eleitorado goze de liberdade para obter notícias e considerar os pontos de vista dos competidores. A democracia é um sistema exigente e não apenas uma condição mecânica (com um governo da maioria) tomada isoladamente.”

A democracia é um ser vivente, que deve ser o tempo todo revigorado e necessita da presença de agentes e instituições de defesa, inclusive dos inimigos internos advindos, principalmente, dos sistemas de representação, das agremiações partidárias, principalmente dos representantes dos poderes constituídos. Em especial dos grupos organizados que, entendidos como majoritários, ao construir sua identidade à custa de um enorme conjunto de atores e segmentos ausentes de representação e marginalizados da vida pública.

Com o caos institucional que vivemos, tornou-se impossível identificar, pelos sinais emitidos, o que exatamente seria a vontade popular? E qual é o seu desejo de mudança, pois são tantas cacofonias e ruídos, que, mesmo a proximidade de uma eleição geral, não oferece informação suficiente para construção de algum consenso mesmo que de curto e médio prazo, permitindo-nos fazer uso de um outro tipo de reflexão. 

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A reflexão sobre a alienação

Pessoas, enquanto indivíduos e cidadãos, sofrem de angústias existenciais e são muitas vezes vítimas de processos de alucinação, desencontro de consciência e perda da capacidade cognitiva, algumas em decorrências de doenças psíquicas ou desequilíbrio comportamental, outras por fruto de processos de alienação voluntário ou induzido, como podemos perceber na obra de Jean Baudrillard - 1929/2007 -, sociólogo e filósofo francês que construiu uma teoria que envolve os conceitos de simulação e simulacros, tese que inspira interpretações sobre a enorme doença que se instalou em sociedades modernas, qual seja, a perda de identidade. Os indivíduos aderem à banalidade da vida, uma espécie de mediocridade consentida. No essencial de suas falsas reflexões, a irracionalidade do cotidiano é perfeitamente normal; uma chamada compressão lógica do mundo passa a ser entendida, ditada por um roteiro de aberrações, e o absurdo de sua visão particular do mundo é algo perfeitamente racional e a única fonte de uma verdade consentida.

Nesse contexto, a nova versão da alienação é formada pelo que Baudrillard qualificou de uma hiper-realidade, que é definida como a capacidade dos meios de mídia – (hoje incluiríamos as chamadas redes sociais) - como fonte de reprodução de comportamento, e as formas como as pessoas devem proceder cotidianamente. O comportamento adestrado passa a ser uma verdadeira cegueira, sem capacidade para uma reflexão crítica.

Criou-se se uma realidade virtual, substituindo a realidade real. 

O eleitor situa-se em um mundo da ficção, como se fosse a própria verdade a respeito de tudo aquilo que deveria ser entendido no verdadeiro espírito crítico, que movia a percepção da história, em seu significado ontológico, o que permitia que análise de cunho liberal, encontrada em livros de economia, expressasse referências com esse teor: “Há momentos na história em que uma espécie de ‘mão invisível’ direciona o impossível para o factível, o imponderável para o provável. O que era um talvez, torna-se o certo. A história pode construir o amanhã a partir dos ossos encontrados nas catacumbas do passado."

Os perigos da divisão: o preço da desigualdade

Em visão mais atual, Joseph E. Stiglitz, outro economista laureado com o Nobel em economia, diz, In” O Preço da Desigualdade: Como a Sociedade Dividida de Hoje Põe em Perigo o Nosso Futuro” (2012): “Antes do iluminismo, na antiguidade, a filosofia natural em geral não via nada errado em tratar outros humanos como meios para os fins dos outros. Como disse o famoso historiador grego Tucídides, ‘certo, como o mundo está, só está em questão entre iguais no poder, enquanto os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que precisam. Aqueles com poder usaram esse poder para fortalecer suas posições econômicas e políticas, ou pelo menos para mantê-las.’ Eles também tentaram moldar o pensamento para fazer diferenças aceitáveis na renda, que, de outra forma, seriam odiosas.”

Qualquer que venha a ser o posicionamento e a orientação de pensamento ao qual o leitor tenha vínculo, a mensagem que gostaria de transmitir é a seguinte: A defesa do processo eleitoral e a criação de salvaguardas ao regime democrático são os únicos movimentos aceitáveis, e qualquer variação ou tentação vinda de diferentes fontes ou origem constitui-se em gestos e/ou estratagema inconciliáveis com o estado civilizatório e o regime constitucional, e deve ser rechaçado de forma peremptória!