O Outro Lado da Moeda

Os próximos 117 dias

Jornal do Brasil
O Outro Lado da Moeda
Renê Garcia Jr.

As últimas semanas forneceram um breve sumário do que poderá vir a ser a trajetória futura das expectativas dos agentes econômicos e das flutuações associadas com alguns dos principais indicadores econômicos. São uma previa dos próximos 117 dias que separam esta data e o dia das eleições gerais de 2018, com o resultado do primeiro turno da eleição para a presidência e governadores estaduais. 

Nos últimos quinze dias, desordem, paralisações perda de produção e prejuízos generalizados marcaram o que está sendo entendido como um tenebroso processo de liquidificação de um governo. 

Natural que o mercado financeiro nacional reagisse de forma esquizofrênica e medrosa, daí as fortes oscilações na taxa de câmbio e os movimentos bruscos de desvalorizações dos ativos (Bolsa de Valores).

Em parte, o cenário externo colaborou para a crise, por conta do ambiente de hostilidade do governo norte-americano em suas negociações comerciais, forçando a Europa e a China para que aceitem políticas de imposição de  tarifas sobre alguns produtos e obrigando a China a diminuir seu superávit comercial em, no mínimo, US$ 100 bilhões dos atuais US$ 360 bilhões ano com os EUA, o que está sendo entendido como a imposição de uma situação artificial no fluxo do comércio internacional, com perda de produtividade, produção e aumento de preços.  

Estudo publicado na última semana pelo FMI apresenta o cálculo de que se todos os países elevarem tarifas e restrições não tarifarias ao longo dos próximos três anos, os preços dos produtos comercializados podem subir algo como 10%, implicando perda acumulada da produção global de 1,75% ao longo dos primeiros três anos e de 2 % em um prazo de 10 anos. O fluxo de comércio cairia em 15% ao longo dos próximos cinco anos. 

Os mercados e os principais analistas internacionais entendem que a política de comércio exterior da administração Trump tem um componente potencial de detonar uma demanda artificial de emprego no curto prazo, o que significaria que os salários reais continuariam a subir em taxa e ritmo superiores aos indicadores de produtividade, o que já vem ocorrendo e significará que a taxa de inflação de 2019 poderá ser mais alta, principalmente pela perda de influência dos preços dos produtos chineses, envolvendo uma enorme cadeia de produtos que hoje estão com impacto deflacionista (vestuário, eletrônicos, artigos de consumo e componentes industriais, entre eles). 

O movimento de alta na inflação, se for consistente com essa dinâmica, deverá levar o FED (Banco Central norte-americano) a deflagrar um processo de alta na taxa de juros básica desconto (hoje em  2,25 a.a.), com a taxa dos chamados títulos de curto prazo (Fed Funds em 1,70 a.a.), em função da evolução de alguns dos principais indicadores econômicos da economia doméstica: inflação no últimos 12 meses (2,35%), crescimento do PIB esperado para o ano de 2018 (2,9%), indicador que mede o custo da mão de obra, que sofreu um crescimento de 3,70% nos últimos quatro trimestres, contra um crescimento dos índice que mensura a produtividade de 1,53% no mesmo período, o que significa dizer que as taxas de juros dos títulos federais norte-americanos de prazo mais longo  deverão sofrer uma abertura de taxas, ou seja, vão subir as taxas para juros de 10 anos remunerados a 2,93% a.a., os de 20 anos a 3,01% a.a., e os de 30 anos a 3,08% a.a.

Em termos práticos, o que isso quer dizer? Indica que o movimento do realinhamento do juro doméstico às taxas de juros tomada como referência de riscos deverá sofrer um incremento a médio prazo, com impactos na flutuação da taxa de câmbio Real/Dólar e, nos anos seguintes a 2018, a taxa de juros no Brasil deve subir bem. 

Hoje, os mercados futuros já projetam uma taxa de juros para 2029 implícita de 13,44%, sendo que a trajetória da taxa de inflação para o período é desconhecida, assim como o comportamento das taxas de juros intermediária, que podem flutuar muito. Não é possível ter uma visão adequada do que de fato esse número significa.  

Em declaração recente do ministro do Planejamento sobre a trajetória do déficit público, foi apontado que o déficit primário vai continuar pelos próximos seis anos em adição aos cinco já vividos, o que, por si só, já revela uma trajetória não declinante para a taxa de juros no Brasil em termos reais para os próximos anos.

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O efeito narciso do chamado mercado

O ambiente interno nacional é frequentemente tomado por arrepios e crises de identidade do que se costumou chamar como o mercado financeiro; esse medo a tudo que não seja o espelho e encontrado diariamente nas infindáveis declarações de personagens insólitos, fortes candidatos a mediocridade, que repetem sem parar o mesmo texto e a mesma ladainha. 

Por conta de um forte movimento de proteção de imagem, os grandes bancos nacionais cultivaram relações, algumas incestuosas, com empresas gestoras de fundos, que, por conta de alguns milhões de reais de bonificações por ano, se prestam ao ridículo e covarde papel de agentes propagadores de boatos e cenários de crise apocalíptica, traçando um verdadeiro clima de caos e desestabilização. 

A insegurança, o medo e a covardia de alguns desses agentes, quando transmitidos por uma corrente de atores, podem, no curto prazo, provocar situações de estresse e elevada volatilidade em ativos, como as ações negociadas em bolsa e na cotação do Real. 

Contudo, entre mortos e feridos, a semana revelou o total domínio do Banco Central do Brasil, tanto no manejo da política monetária focada na meta de inflação, quanto ao compromisso com a flexibilidade na taxa de câmbio, mas garantindo o direito de intervenção sempre que situações anômalas, como as encontradas na última semana forem. 

O estoque das reservas internacionais que se encontra em US$ 384 bilhões e o inexpressivo déficit em transações correntes asseguram a não existência de possibilidades de algum contágio do desequilíbrio fiscal interno (não dolarização de passivos da União), o que confere efetividade à política de intervenções e operações de venda de swaps cambiais (em volume de US$ 36 bilhões). 

O valor do total do passivo externo líquido do Brasil, passível de alguma proteção no curto prazo, adicionado ao fluxo de dividendos e juros programados para o ano, é inferior em quase US$ 140 bilhões ao valor das reservas nacionais, evidenciando que liquidamente o Estado brasileiro é credor em dólares, o que afasta qualquer tentação especulativa ao Real. Da mesma forma que há folga no nível de produção (capacidade ociosa ou do hiato do produto), o que indica não tem substância qualquer expectativa devido a um eventual recrudescimento do processo inflacionário, o que descarta a tese de aumento da taxa de juros no curto prazo. 

O problema do Brasil, no curto prazo, repousa quase que exclusivamente na opção preferencial dos eleitores pelo caos, o quadro para as eleições de 2018 é apavorante e dantesco, mas, este será o tema da próxima coluna.