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Opinião

O Brasil dos informantes

A extensa lista de acusados que armam rota de fuga antes de serem presos expõe esquemas de vazamento

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O que Jacob Barata, Joesley Batista, Aldemir Bendine, Cesare Battisti e Carlos Arthur Nuzman têm em comum, além de estarem envolvidos em investigações? 

Todos agiram como se tivessem sido informados antecipadamente que seriam presos. No Brasil da Lava Jato e dos escândalos, parece que as informações sigilosas muitas vezes são as que chegam mais rápido aos ouvidos dos suspeitos. 

O falastrão Joesley Batista, da JBS, deixou o país em seu jatinho rumo a Nova York para viver livre, leve e solto, após sua bombástica delação premiada. A sensação que ficou era de que ele já imaginava que o desfecho do caso seria a cadeia, como realmente foi. Quem o informou sobre esta possibilidade? Por que deixar o país se havia um acordo firmado com a Procuradoria-Geral da República?

O ex-ativista Cesare Battisti foi detido na fronteira do Brasil com a Bolívia com mais de R$ 10 mil em dinheiro. Por que ele ia deixar o país? Se tentava fugir, é porque sabia que ia ser preso para ser extraditado para a Itália, onde é condenado à prisão perpétua acusado de homicídio. Quem o informou? 

À esquerda, Aldemir Bendine, Cacciola e Battisti. À direita, Joesley Batista, PC Farias e Jacob Barata. Ao centro, o até agora foragido Rei Arthur e Carlos Arthur Nuzman
À esquerda, Aldemir Bendine, Cacciola e Battisti. À direita, Joesley Batista, PC Farias e Jacob Barata. Ao centro, o até agora foragido Rei Arthur e Carlos Arthur Nuzman

O Rei dos Ônibus, Jacob Barata Filho, acusado de participar de esquema de corrupção no transporte com o ex-governador Sérgio Cabral, foi preso dentro no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, onde embarcava para Portugal com passagem só de ida. Como se não bastasse, levava em sua mala a ordem de quebra do sigilo bancário dele e de outros dez investigados, um documento sigiloso e de distribuição específica para funcionários de alto escalão de bancos. Mais uma vez fica a pergunta no ar: quem o informou da prisão? Como ele tinha este documento? 

O presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, foi preso nesta semana e as investigações apontam que ele tentou ocultar bens. No dia 5 de setembro, ele havia sido intimado a depor e teve sua casa alvo de mandado de busca e apreensão na apuração de suposta compra de voto para o Rio sediar a Olimpíada. A investigação aponta ainda que Nuzman teria participado da famosa "farra dos guardanapos" com Cabral em Paris. Da entourage olímpica do ex-governador fazia parte ainda Carlos Roberto Osório, braço direito e um dos principais coordenadores do projeto Rio 2016.

Nuzman na farra dos guardanapos, em Paris
Nuzman na farra dos guardanapos, em Paris

Duas semanas depois da operação da PF que intimou Nuzman em setembro, ele retificou seu Imposto de Renda para incluir valores em espécie e 16 barras de ouro, depositadas na Suíça, no valor total de R$ 2 milhões. Quem o informou que a Polícia Federal já sabia de bens não declarados? Por que ele retificou a declaração?

O ex-presidente da Petrobras e do Banco do Brasil Aldemir Bendine foi preso, acusado de corrupção envolvendo a Odebrecht, quando já estava de posse de uma passagem só de ida para Lisboa, em Portugal. Mais uma vez, a pergunta que não quer calar volta à tona: por que ele ia viajar? Alguém o informou sobre a investigação? Aliás, a operação que prendeu Bendine também prendeu o publicitário André Gustavo Vieira da Silva. Ele estava no portão de embarque do Aeroporto Internacional dos Guararapes, no Recife, quando tentava embarcar também para Portugal.

Mas esses casos recentes estão longe de serem os únicos. Apenas para citar dois dos mais emblemáticos, temos Salvatore Cacciola e PC Farias para mostrar que o vazamento de informações para investigados são uma prática rotineira num país destruído pelos escândalos de corrupção.

O banqueiro Cacciola, dono do falido Banco Marka, foi condenado a 13 anos de prisão, juntamente com funcionários do Banco Central, por crimes contra o sistema financeiro após seu banco ter sido socorrido, em 1999. Ficou preso por 37 dias até conseguir um habeas-corpus e fugir para a Itália. Tempos depois, acabou sendo preso pela Interpol quando viajou para Mônaco, e extraditado ao Brasil. Para fugir do país, Cacciola fez um rali que incluiu Paraty (RJ), São Paulo, Santana do Livramento (RS), Montevidéu, Buenos Aires, até chegar à Itália. Uma movimentação tão complexa que certamente já estava estudada e preparada previamente. Como ele sabia que iria conseguir um habeas corpus? Quem o informou?

Indo ainda mais longe, temos o caso de PC Farias, tesoureiro de campanha do ex-presidente Fernando Collor. Ele teve a prisão decretada em 1993, acusado de fazer parte de um esquema de corrupção envolvendo o governo. Fugiu do interior de Pernambuco a bordo de um avião pilotado por seu ex-sócio Jorge Bandeira. Fez escala no Paraguai até chegar a Buenos Aires. De lá, seguiu para Londres, onde foi localizado meses depois. Fugiu então para a Tailândia, de onde foi deportado em novembro do mesmo ano. Após ser preso e ganhar liberdade provisória, acabou assassinado ao lado de sua namorada.

Rei Arthur

Apesar do vazamento de informações sigilosas, os exemplos citados acima terminaram com o acusado preso. Contudo, há uma exceção: o empresário Arthur Cesar Soares de Menezes Filho, conhecido como Rei Arthur, envolvido em vários esquemas de corrupção investigados no governo Sérgio Cabral, está foragido há um mês, desde que teve sua prisão decretada. O dono da Facility e mais importante fornecedor do governo Cabral teve seu nome incluído na difusão vermelha da Interpol. Com residência fixada em Miami, até o momento não foi localizado. Como a Interpol, mais bem equipada polícia do mundo, não consegue fisgar Rei Arthur no exterior? Onde ele estaria, para escapar de tão acirrado cerco?

Mais uma pergunta à espera de resposta.