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O pesadelo dos tiranos é o oásis para os humanistas

Jornal do Brasil DÉLCIO TEOBALDO*

Na última década do século 20, dois encontros mundiais – a Cúpula pela Criança, realizada em Nova York, em 1990; e a Cúpula pela Terra, a Eco-92, sediada no Rio de Janeiro – sinalizaram que, ao serem postas na mesma balança, infância e plantas teriam pesos equivalentes em quaisquer planejamentos para o século 21. Havia motivos para o otimismo, pois os principais chefes de Estado reunidos naquelas cúpulas discutiram pobreza, desemprego e exclusão social. Claro que, diante dessas carências e conflitos, o ouro das cifras brilharam nos olhos ao assinarem intercâmbios econômicos, mesmo condicionados a uma série de metas para melhorar as condições de vida do planeta.

Naquele período, crianças sadias e áreas verdes alimentaram as esperanças dos povos. Não era para menos. As metas previam redução de 50% nas taxas de mortalidade dos menores de 5 anos; educação básica; fornecimento de água limpa e saneamento para as comunidades mundiais. Estabelecidas hoje, as metas soariam utópicas. Naquela década, mais ainda, considerando que o mundo estava perplexo com o 1994 sangrento em Ruanda, África Oriental, onde os extremistas hutus haviam massacrado 800 mil pessoas, inclusive crianças, da minoria étnica tutsi.

Lamentável. Inadmissível. Porém, o otimismo pela proximidade do novo século manteve acesa a chama; tanto que, em 1995, técnicos do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) redigiram um relatório prevendo, com dados seguros, como seria, ou melhor, como será ou pode vir a ser o mundo em 2050: humanista, se encarar, sem medo, a arte de ser feliz; ou tirano, se a arte de ser feliz ainda lhe causar medo. Impasse mais contemporâneo, impossível. Passados 23 anos, nem as metas pensadas para o raiar do ano 2000 foram cumpridas e o século 21 já se prepara para fechar a tampa dos seus primeiros 20 anos, com urgência de transformar promessas em feitos. Promessas, que eu trocaria por diálogo intergeracional; feitos que substituiria por iniciativas. Diálogos entre gerações e iniciativas nascidas deles determinarão todos os planejamentos e ações da terceira década deste século.

Os passos estão sendo dados. Mirem-se nas Campus Party, no Hackacity, nas discussões sobre Governança Territorial e Saúde, Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, Cidades Inteligentes, Turismo de Base Comunitária, Território e Pertencimento e terão passaporte seguro para o que se previu futuro, mas que, virtual e realisticamente, ocorre agora. A partir do diálogo intergeracional horizontalizam-se as relações; experimentam-se novas formas de interação: pessoas que, sem sair de casa, firmam laços de parentesco virtuais e globais tão sólidos quanto os que possuem com os seus; aprende-se que o mundo pode ser provado em todos os seus saberes e sabores.

Quem vivenciou, recentemente, os três dias da Hacking Rio, que reuniu na Região Portuária do Rio de Janeiro, a diversidade étnica e etária de criadores, especialistas, empreendedores e investidores, em palestras, competições e fóruns sobre inovação, tecnologia, design e negócios, dispõe de uma pequena mostra para refletir sobre o que escrevo. Pequena porque, nesse universo, diálogos e iniciativas são meios para a democracia e a convivência e, por mais grandiosos que pareçam, são celulares. Exatamente porque ato de grandeza hoje é admitir-se parte miudinha do todo. O que é um pesadelo para os tiranos, mas um oásis para os humanistas.

* Jornalista, etnomúsico e gerente de projetos da Secretaria de Ciências, Tecnologia e Comunicações de Maricá (RJ)



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