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Intervenção militar e suas representações

Jornal do Brasil ISABELA SOUZA*

Você já entrou na Arena Carioca Carlos Roberto de Oliveira – Dicró? Já ouviu falar sobre esse espaço e sua programação? O Centro Cultural existe há seis anos, no bairro da Penha, Zona Norte do Rio, e é um equipamento público, cogerido pela Secretaria Municipal de Cultura e pelo Observatório de Favelas do Rio de Janeiro. Em sua estética e programação, a Arena Dicró é um ambiente que em nada se aproxima – do ponto de vista do investimento que se tem feito há seis anos em toda a materialidade e simbolismo que constroem a narrativa do espaço – da militarização, do controle e da violência: é um espaço agradável, dentro do Parque Ary Barroso, uma das principais áreas verdes da Leopoldina carioca, onde artistas da ordem de Regina Duarte, Bala N’agulha, Passinho Carioca, Fernanda Montenegro, Grupo Teatro da Laje, Nós do Morro, Canto Cego, Moska, Lenine, Companhia Brasileira de Ballet, Mahmundi, Orquestra Voadora, Samba Nonsense, Resistência Cultural, Isa Oliveira, Companhia Armazém, Nyl Mc e tantos outros e outras passaram e passam contribuindo para a construção dessa utopia na forma de um centro cultural de relevância para o Rio.
Em 20 de agosto, uma estética bélica se instaurou como nunca na Arena Dicró: militares do Exército chegaram por volta de 5h e, no lugar de zelarem, ou pelo menos respeitarem, o que vem sendo construído estética e politicamente na Arena Dicró, as forças de “segurança” violaram o espaço, construindo nele uma fortaleza para suas ações de violência nos conjuntos de favelas da Penha e do Alemão.
Esse é um tipo de equívoco que expressa o quão descolados os supostos planejamentos de ações de intervenções no Rio de Janeiro estão do que pode significar segurança por aqui. A Arena Dicró é tida como um oásis de segurança, ou ao menos uma experiência que caminha nesse sentido, inclusive em intensos diálogos e negociações com os policiais militares que nela circulam, devido à proximidade com as UPPS do Conjunto de Favelas da Penha, frequentando o Boteco do Parque na hora das refeições e fazendo uso de bebedouros e banheiros.
A intervenção nos subordinou ao Exército, que sugeriu que a programação de dois dias fosse cancelada para que o espaço, que é público, servisse de base militar do plano federal de incursão em favelas, em busca de expressões da criminalidade. O juízo de valor operado pelos entes de segurança ficou claro: ao trabalho que tem sido construído no campo das políticas culturais da cidade foi dado o lugar menor e ele foi tratado como insignificante ao ponto de ser desmobilizado para que a ordem militar se instaurasse.
As nove primeiras operações da intervenção militar no Rio, entre 19 de fevereiro e 15 de março, custaram R$ 1.097.353,25. Esse total custearia quase 11 Arenas Cariocas por um ano. Tendo em vista que são apenas quatro arenas na cidade, com os custos das nove intervenções militares realizadas no período poderiam ter sido inaugurados seis novos equipamentos culturais no estado.
São fontes de recursos diferentes e que têm objetivos claramente divergentes, mas a comparação assusta, porque do ponto de vista do impacto e do poder de mobilização que equipamentos como as arenas podem desenvolver, a possibilidade de existirem mais seis atuando de formas análogas certamente reverberaria na cidade e na ampliação da noção de direitos, no que tange ao acesso a bens, serviços, experiências e práticas culturais.
A ampliação dessa noção e o fluxo de possibilidades que segue têm intenso potencial para reverberar na cena cultural e artística da cidade e com probabilidade de desdobramento em dados a serem interpretados pelas lentes de indicadores sociais e econômicos. Logo, parece que temos aí uma outra matemática possível.

* Diretora do Eixo de Arte e Território do Observatório de Favelas; gestora da Arena Carioca Dicró e do Galpão Bela Maré



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