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Uma Zuzu Angel negra vem aí

Jornal do Brasil ÁLVARO CALDAS*

Quarenta e dois anos depois do criminoso acidente que a matou, em abril de 1976, Zuzu Angel está de volta. Desta vez num desfile de moda em sua homenagem, que terá como tema “o genocídio da juventude negra pelo Estado”. As ações da estilista criaram raízes e se projetam no presente, mantendo viva a memória dos tempos passados. Sua obstinação num momento crítico vivido pelo país, em plena ditadura, abre caminho para que ela ressurja, qual uma fênix que renasce das próprias cinzas, agora incorporada às atividades artísticas do movimento negro da periferia.
Como artista inovadora da moda e como mãe, inscreveu seu nome na História. O assassinato de seu filho, Stuart Edgard Angel Jones, então um jovem de 26 anos, sob dilacerante tortura na Base Aérea do Galeão, transformou sua vida. Stuart é um dos desaparecidos deixados pelo regime militar. À procura de seu corpo, ela juntou seu talento à dor genuína de mãe, incorporando aos temas de seus desfiles de moda mensagens de denúncia desenhadas nos vestidos de suas modelos. Em sua luta solitária e corajosa, nunca deixou de perguntar: “Onde está o corpo de meu filho?”.
Como também fizeram outros artistas na época, abalados pela crueldade dos assassinatos de jovens nos porões militares. Hélio Oiticica foi um deles. Inconformado com a execução de um amigo, fez estudos para montar uma tenda de circo em praça pública. Denominou a instalação de “Ronda da morte”. No happening, música de discoteca tocaria em alto volume e luzes faiscantes ofuscariam a visão dos espectadores, escondendo o perigo que ameaçava do lado de fora. De repente, os presentes seriam surpreendidos por um grupo de homens a cavalo, encarnação da polícia montada do regime, que corria atrás dos estudantes em suas passeatas.
Quase cinco décadas depois desse Brasil abafado pelo terror da ditadura, Zuzu Angel volta à cena na Festa Literária das Periferias (Flup), que este ano será realizada em novembro, no Cais do Valongo, área portuária do Rio, porto de chegada dos africanos escravizados nas Américas. A área foi declarada Patrimônio Histórico da Humanidade. A Festa será aberta com um desfile de moda que recria o histórico desfile de denúncia realizado por Zuzu Angel em Nova York, em setembro de 1971.
Impedida de trabalhar no Brasil, a costureira mineira queria chamar a atenção do mundo para o desaparecimento de seu filho. Vestidas de branco, as modelos desfilaram com tarjas pretas nos braços e desenhos de anjos tristes, sol quadrado e pombas negras. Na Flup da periferia, dez jovens estilistas negros vão mostrar suas criações. Segundo Júlio Ludemir, um dos organizadores, essa turma está reinventando a moda com o tema do genocídio da juventude negra, assim como Zuzu fez com Stuart.
Certamente que ela iria gostar dessa homenagem. A morte de Stuart, em maio de 1971, revestiu-se de circunstâncias tenebrosas. Amarrado a um jipe no pátio interno da Base Aérea, foi arrastado enquanto aspirava gás do cano de descarga do veículo. A cena foi vista pelo preso Alex Polari de Alverga, que a relatou em carta a Zuzu, que passou a ser monitorada e seguida por agentes dos órgãos de repressão.
Zuzu Angel anteviu sua morte. Em mensagem entregue a amigos, revelada pela Comissão Estadual da Verdade do Rio, escreveu: “Se algo acontecer comigo, se eu aparecer morta por acidente, assalto ou outro meio qualquer, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho”. Algo aconteceu e foi um crime, cinco anos depois, na madrugada de 14 de abril de 1976, sozinha em seu carro, ela terminava a travessia do Túnel Dois Irmãos, em São Conrado, quando o veículo colidiu com a grade de proteção do viaduto e capotou diversas vezes. Acidente criminoso até hoje impune. Mas Zuzu continua viva, agora num desfile de moda e ativismo dos negros da periferia.

* Jornalista e escritor



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