Jornal do Brasil

País - Artigo

As elites políticas fluminenses: a tradição reconfigurada

Jornal do Brasil PAULO BAÍA*

Ao se falar em elites fluminenses e cariocas há uma mistura com as elites nacionais até a transferência da capital da República. No Rio de Janeiro existia uma dinâmica de “castas” políticas regionais, ligadas por uma dependência getulista consolidada a partir de 1930. Como contraponto, tínhamos grupos não operadores das máquinas governamentais antigetulistas, destacando-se Carlos Lacerda. A classe empresarial era descompromissada com projetos de desenvolvimento local e regional, ao contrário do empresariado de outros estados.
Com a criação do Estado da Guanabara e as eleições de 1960-62, redefine-se o papel das elites locais diante da autonomia regional recém-conquistada. O getulismo ganhou duas vertentes com a eleição de Brizola e o fortalecimento de Amaral Peixoto na hegemonia da máquina política no antigo Estado do RJ. Esse perfil delineado é destroçado pelo golpe militar de 1964 através das cassações. O getulismo não desaparece. É reconfigurado com a exclusão do trabalhismo. Assim, nos anos 1970 consolidou-se, de um lado da Baía de Guanabara, Chagas Freitas; e de outro, Amaral Peixoto, e um resquício minoritário do lacerdismo.
Chagas Freitas nunca fez parte direta das hostes getulistas, sua história foi construída a partir da oposição a Vargas via PSB e PRP, que se colocara numa posição intermediária entre o getulismo e o lacerdismo. Com as eleições de 1966, passamos a ter três grupos políticos: getulistas moderados – liderados por Amaral Peixoto; os intermediários entre getulistas e não-getulistas, liderados por Chagas Freitas; e os herdeiros políticos de Carlos Lacerda – dispersos na Arena, com Amaral Neto e Sandra Cavalcanti. O acirramento da repressão política aos antigos getulistas, vinculados ao PTB e a Brizola, nos estados do RJ e da Guanabara, ganhou o ápice com o AI-5, numa ampla cassação de mandatos parlamentares. E o MDB ficou, a partir de 1970, sob o total controle de Chagas Freitas, na Guanabara, e Amaral Peixoto, no Estado do RJ, tendo Raimundo Padilha, da Arena, como governador do estado.
O chaguismo caracterizou-se por seu atrelamento ao governo federal e domínio absoluto do governo estadual, com controle dos prefeitos. Com a lei da anistia ocorreu o retorno de Brizola e as eleições de 1982. A máquina chaguista tinha Miro Teixeira como candidato, o qual descolou-se do chaguismo, estabelecendo vínculo com as propostas democratizantes. Entretanto, sem máquina partidária e resgatando uma memória política, sobretudo na cidade do Rio, Brizola rompe as barreiras da disputa e sai vitorioso. E conseguiu eleger um número significativo de deputados federais e estaduais graças à vinculação do voto, garantindo uma maioria desarticulada no Legislativo. Ao longo do primeiro ano de governo, os representantes do chaguismo estabeleceram um controle prático da Alerj, impondo a Brizola uma coligação, liderados por Jorge Leite, Claudio Moacir, Gilberto Rodrigues, Aloísio Gama e Elias Camilo Jorge.
Em 1990 houve uma renovação significativa da Alerj, com a eleição de Sérgio Cabral, J. Piccianni e Paulo Melo, constituindo o embrião de um novo núcleo do poder, consolidando-se no início de 1995 com a eleição de Cabral para presidente da Casa. Um novo perfil das elites fluminenses estabeleceu o controle majoritário dos poderes Legislativo e Executivo perpassando os governos de Marcelo Alencar até Pezão. Sérgio Cabral fortaleceu os princípios da dinâmica chaguista: excelente nível de relacionamento com o governo federal, comandado por Lula e Dilma (PT); controle territorial dos municípios através das máquinas públicas federais e estaduais; emendas parlamentares; grandes obras, projetos dirigidos para atender interesses locais vinculados a parlamentares; e uma Assembleia Legislativa empoderada e em sintonia com o Executivo. Essa influência tende a ser consolidada na eleição de outubro de 2018, projetando seu domínio para o futuro governador do estado, seja ele qual for.

* Cientista político, professor da UFRJ (palestra proferida no II Simpósio JB-Cebrad sobre o Rio de Janeiro)



Recomendadas para você