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Marco Túlio Cícero e as lições para se conduzir um país (IX) 

Textos do político e filósofo romano do ano 63 a.C. inspiram momento atual

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Marco Túlio Cícero foi um advogado, político, escritor, orador e filósofo da República Romana eleito cônsul no ano de 63 a.C. Ele produziu uma série de textos sobre como conduzir um país, com dicas a respeito de leis, poder, liderança, amigos e inimigos, persuasão, compromisso, dinheiro, imigração, guerra, corrupção e tirania. 

Jornal do Brasil publica a última matéria da série de textos, que podem servir de inspiração para o momento atual do país.

Cícero fala sobre tirania e República:

As pessoas se submetem à autoridade e poder de outra pessoa por uma variedade de motivos. Por vezes fazem isto por causa da boa vontade e reconhecimento demonstrados a eles. Às vezes o fazem por causa da dignidade de uma pessoa ou porque esperam lucrar com isto. Algumas pessoas se submetem sob o temor de que, se não o fizerem, a outra pessoa vai fazer com que se submetam de qualquer forma. Algumas vezes as pessoas entregam sua liberdade por causa de presentes ou promessas. Por fim, como tem sido recorrente em nosso país, pessoas se submetem ao poder de outra pessoa por causa de subornos diretos.

Marco Túlio Cícero
Marco Túlio Cícero

É melhor forma de um homem ganhar autoridade sobre outros e mantê-la é pela afeição genuína. A pior forma, contudo, é pelo medo. O sábio Ênio disse certa vez: "As pessoas odeiam o homem que elas temem -- e quem quer que eles odeiem, eles querem ver morto." Apenas recentemente nós aprendemos, como se ainda não soubéssemos disto, que nenhuma quantidade de poder pode enfrentar o ódio das pessoas. A morte de César, que governou o Estado através das forças armadas (e cujo legado ainda nos governa), mostra melhor do que qualquer outra coisa o terrível preço pago por todos os tiranos. Vocês terão dificuldade em encontrar qualquer déspota que não tenha tido um fim como ele. Eu digo isto de novo, usar o medo para manter o poder simplesmente não funciona. Mas o líder que mantem a afeição de seu povo está seguro. 

Os governadores que desejam manter seus assuntos sob controle pela força terão que usar métodos brutais, assim como um mestre que precisa lidar com rebeliões de escravos. Qualquer que tenta governar um país pelo medo é bastante louco. Não importa o quanto um tirano possa tentar revogar a lei e esmagar o espírito da liberdade, mais cedo ou mais tarde estes vão ascender novamente através da indignação pública ou pela urna. A liberdade suprema e ressuscitada morde novamente com dentes ainda mais afiados como se se nunca tivesse se perdido. Assim sendo lembre-se o que é verdadeiro sempre e onde for e qual é o suporte mais forte para a prosperidade e o poder, a saber que a bondade é mais forte do que o medo. Esta é a melhor regra para governar um país e para liderar a própria vida.

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Cícero apresenta um diálogo imaginário entre o general romano Cipião e seu amigo Lélio:

Cipião: Como pode um estado governador por um tirano ser chamado de República? Para isto é o que significa a República -- 'res publica', "a propriedade do povo". Nenhum país em que todos são oprimidos por um único homem, onde não há vínculo comum de Justiça, onde não há acordo entre os que se reúnem, pode um dia pertencer ao povo. Veja Siracusa, a mais gloriosa das cidade, a qual Timeu chama de a melhor cidade grega e a mais bonita do que qualquer outra. Sua cidadela era uma visão a contemplar, assim como era seu porto e ancoradouro, águas atingiam o coração da cidade e as fundações de construções. Suas ruas eram amplas com magníficas colunatas, templos e muros. Ainda assim ela não poderia ser chamada de República enquanto Dionísio governou, porque tudo pertencia a ele. Assim, onde quer que um tirano governe não não devemos dizer que este lugar tem uma má República - como eu sei que disse ontem - porque na verdade não se trata de uma República de qualquer modo. 

Lélio: Bem dito, Cipião. Agora eu entendo o que você estava dizendo mais cedo. 

Cipião: Então, você vê que mesmo um país controlado por um pequeno número de homens em vez de um ditador não pode ser chamada de República?

Lélio: Sim, eu certamente vejo.

Cipião: E você estaria certo em acreditar nisto. Onde estava a "coisa do povo" quando, depois da grande Guerra do Peloponeso, o notório Terceiro assumiu Atenas? A glória antiga deste Estado ou seus esplêndidos prédios, teatros, ginásios, colunatas, o valioso Propileu, a acrópole, trabalhos de arte de Fídias ou o magnífico Porto fizeram dela uma República?

Lélio: Não, certamente não, já que nada verdadeiramente pertencia ao povo.

Cipião: E sobre quando o Conselho dos Dez governou em Roma sem qualquer direito de recurso, quando a liberdade perdeu todas as suas defesas?

Lélio: Lá não havia nada parecido com uma República. De fato, o povo logo se levantou para recuperar sua liberdade.

Cipião: Considere agora um terceiro tipo de governo que também pode ter muitos problemas, nomeadamente os valores da democracia. Suponha que em tal Estado o povo tenha controle sobre tudo e que todo o poder esteja em suas mãos. As massas impõem punições a qualquer um que eles escolham e aproveitam, saqueiam, tomam ou distribuem i que eles quiserem. Não é esta a própria definição, Lélio, de um estado no qual a propriedade pertence ao povo? Você não descreveria isto como a República perfeita?

Lélio: Eu certamente faria isto! Não há estado menos merecedor deste nome to que aquele em que a propriedade está sujeita aos caprichos da multidão. Nós já decidimos de que nenhuma República existiu em Siracusa ou Agrigento ou Atenas quando foram governadas por tiradas nem aqui em Roma quando o Conselho dos Dez estava no comando. Eu não consigo ver como o despotismo pode ser menor em um estado liderado pela multidão. Como você disse sabiamente, Cipião, uma verdadeira República só pode existir quando os cidadãos consentem em ficar juntos sob a lei. A monstruosidade que você descreveu certamente merece o nome de tirania tanto quanto se tratássemos de uma única pessoa. Na realidade, é ainda pior, pois não há nada mais desprezível do que um governo que assume falsamente a aparência e o nome "do povo". 

>> Marco Túlio Cícero e as lições para se conduzir um país

>> Marco Túlio Cícero e as lições para se conduzir um país (II)

>> Marco Túlio Cícero e as lições para se conduzir um país (III)

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>> Marco Túlio Cícero e as lições para se conduzir um país (V)

>> Marco Túlio Cícero e as lições para se conduzir um país (VI) 

>> Marco Túlio Cícero e as lições para se conduzir um país (VII) 

>> Marco Túlio Cícero e as lições para se conduzir um país (VIII)