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Rússia não deixa para trás seus velhos conceitos

Jornal do Brasil
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MOSCOU - Aleksandra Stavcheva é proprietária do restaurante Rosinka Family, num condomínio americano em Moscou. O nome do estabelecimento mostra que a resistência aos EUA diminuiu, a partir do idioma. Family? Em russo seria “семья” - pronuncia-se Cimiá. O alto-falante toca Th e Smiths. Aleksandra Stavcheva explica quando começou a ouvir música pop, na União Soviética. “No fim da década de 80, com a Perestroika”, ela responde. “Na década de 60, havia cópias piratas de discos dos Beatles, vendidas no mercado paralelo. Você podia ser preso.”

Dizem que russos não sorriem e respondem à pergunta “Como vai?” com o advérbio “Нормально”. Significa: Normalmente. Não é verdade. Pergunto ao garçom e ele responde: “Xорошо”. Quer dizer que está tudo bem. Aleksandra diz que as coisas estão melhorando e vão se abrir mais. Mas rejeita a ideia de que exista uma nova Rússia: “Somos a mesma Rússia.” 

Vladimir Putin quer mostrar uma versão cosmopolita do país, mas a população se incomoda com as mesmas coisas de antes. A corrupção, por exemplo. Somos todos Brics. 

A Rússia abrirá os braços para a 21ª Copa do Mundo na quinta-feira (14), aniversário da estreia contra o Brasil, em 1982, quando a União Soviética perdeu por 2 a 1. 

De todas as seleções soviéticas de sucesso, aquela foi a que mais reuniu diferentes nacionalidades. Eram cinco ucranianos, três georgianos e três russos, sob o comando do russo Konstantin Beskov.

Quando foi semifinalista em 1966, havia sete russos e dois ucranianos. Na Eurocopa de 1988, sete ucranianos e dois russos. “Olhe a nacionalidade do técnico e você descobrirá por quê”, diz o jornalista inglês Jonathan Wilson, autor do livro “Behind the Courtain” (Atrás da Cortina), sobre o futebol no leste europeu. 

No Mundial da Inglaterra, o técnico era o russo Nikolai Morozov. Na Euro, Valery Lobanovsky, da Ucrânia.

Kiev foi capital da Rússia, no século IX. Mesmo assim, eles não se misturam. A última disputa é a do idioma. Em russo, diz-se ВоФранции (Na França). A preposição Bo (Vo) vale para todos os países, mas não valia para a Ucrânia.

Nesse caso, escrevia-se Ha Украине (Na Ucrânia). Porque a Ucrânia estava na borda da Rússia. “Eles sempre foram a Rússia, nunca um país”, diz a professora de russo Polina Dubovskaya. A Rússia quer o mundo, mas não deixa para trás velhos conceitos. Aleksandra parece ter razão. É a Rússia. Não a nova Rússia.