Rio

Barraca do Leme que oferece livros a banhistas passa a sediar debates sobre filosofia

CELINA CÔRTES, Jornal do Brasil

Filosofar na praia vai deixar de ser uma força de expressão neste sábado. A partir das 11h, o filósofo Carlos Frederico Gurgel vai fazer uma palestra de uma hora de duração na Praia do Leme, ao lado dos quiosques na altura da Praça Heloneida Studart. Será um evento gratuito, à sombra de ombrelones, discorrendo desde os pré-socráticos, o primeiro período da filosofia grega, do século VII a V (AC), ao francês Merleau-Ponty (1908-1961). Heráclito de Éfaso (cerca de 535-475 AC), por exemplo, tem tudo a ver com as ondas do mar. Para ele, “tudo flui. Tudo está em fluxo e movimento constante, nada permanece.” 

A origem desse tipo de movimento nasceu na Barraca dos Colorados, nº 37, vizinha de areia ao local onde haverá a conferência. Foi ali que começaram a ser doados gratuitamente livros aos passantes, desde janeiro. A louvável inciativa soou tão estranha à prefeitura que foi multada. “Eles achavam que era um ponto de venda, mas quando viram que era tudo de graça, voltaram atrás”, recorda, divertido, o barraqueiro gaúcho Nunes Cavalheiro, 52, que encampou a ideia do embaixador Jerônimo Moscardo, ex-ministro da Cultura do presidente Itamar Franco. 

O cearense Moscardo, 77 anos, há quatro anos morador do Leme, passou por embaixadas em Bruxelas, Paris, e foi no Uruguai, na badalada Punta del Leste, invadida por argentinos, “que têm o habito de ler na praia”, que veio a inspiração. “Pensei em incutir nos cariocas o hábito de preencher o dolce far niente de se expor livremente ao sol com hábitos culturais”, resume. A máxima do poeta Jorge Luis Borges, “Minha ideia de céu é uma biblioteca”, está estampada em um suporte ao lado da pequena estante onde os livros — doados pelo dono de um sebo e pelos próprios usuários — são oferecidos ao público. 

O embaixador Jerônimo Moscardo, de 77 anos, ex-ministro da Cultura do presidente Itamar Franco, foi quem deu ideia para os encontros na praia

Daí à conferência foi um pulo, e o embaixador achou que filosofia seria o tema ideal para dar largada ao projeto. “Vivemos perplexos, num mundo saturado de notícias. Essa toxidade foi criticada pelo filósofo espanhol Ortega Gasset (1883-1955), para quem a filosofia é o antídoto ao excesso de notícias, porque busca um sentido nas coisas”, argumenta. A ideia tomou forma depois que assistiu à conferência do filósofo Carlos Frederico Gurgel, formado em Roma, capital da Itália. “Ele conseguiu fazer o público entender claramente quem foram e o que propunham os pré-socráticos”, recorda.

Projeto pioneiro

Quem adorou a ideia foi a carioca Ana Lúcia Lima, de 54 anos, formada em história, que já costumava frequentar a barraca 37, levando e trazendo livros. Carioca, moradora do Leme, ela aproveitava suas férias se bronzeando bem ao lado da barraca, que está fincada na metade do caminho entre o calçadão e o mar. “A distribuição gratuita de livros é uma inciativa sensacional. Tenho um filho temporão, e é uma ótima oportunidade para ler literatura infantil para ele na praia”, diz. Sobre a conferência, acrescenta: “Nossa juventude está cheia de informações rápidas, essa palestra será uma forma de aprofundamento, show de bola”, elogiou. 

O barraqueiro Nunes, que já contabiliza 182 assinaturas de pessoas de todo o país no livro aberto aos que pegam e trazem livros — entre eles o teatrólogo e cineasta Jesus Chediack, para quem, “ler é revolucionário” —, orgulha-se: “Filosofia na praia vai ser um projeto pioneiro no mundo, nunca vi nada parecido”. Segundo ele, os maiores clientes dos livros são as crianças, “nunca pensei que isso pudesse acontecer, elas vivem fixadas aos celulares”, surpreende-se. Depois das crianças vêm as mulheres. Até agora, o livro mais famoso que apareceu por ali foi “A Bíblia sob o ponto de vista literário”, com prefácio de Belarmino Maria Austregésilo Augusto de Athayde, o mais longevo presidente da Academia Brasileira de Letras (1959 a 1993). 

Depois que o Papa disse que o inferno não existe, Jerônimo Moscardo pretende prosseguir a “aventura de visitar as grandes tradições da reflexão crítica do pensamento” e continuar a trazer “substância intelectual para um espaço que era só físico”, como as areias do Leme, com o professor Andrea Lombardi, morador do bairro, especialista no italiano Dante Alighieri (1235-1321). A data ainda não foi fixada, mas o tema será “O Inferno de Dante”. E para quem acha que pode haver alguma sofisticação nesse tipo de inciativa, ele resume “É o explendor do simples”.