Rio

Falta de remédio pode inviabilizar transplantes no Hospital de Bonsucesso, dizem médicos

MARIA LUISA DE MELO, malu@jb.com.br, Jornal do Brasil

A cada dia de espera na fila pela doação de um rim aumenta a ansiedade na luta pela vida. Tem sido assim nos últimos dois  anos para Luciene, Marilane, Mauro e Patrícia. Eles são quatro dos 400 pacientes que aguardam na lista de transplantes do Hospital Federal de Bonsucesso. Além do tempo, os doentes renais crônicos ganharam um novo inimigo em suas batalhas: o hospital não tem mais estoque de Thymoglobulina – imunossupressor fundamental para evitar rejeição aos órgãos transplantados.

“Estamos totalmente descobertos deste medicamento. Sem ele não há como realizar transplantes. No fim do mês passado usamos os últimos 20 frascos do nosso estoque para duas cirurgias. Depois disso tivemos outras duas cirurgias que só puderam ser feitas com doações de outros hospitais, o que é incerto”, denuncia Maria Célia Carvalho Pereira, chefe do Serviço de Nefrologia da Unidade de Transplante Renal, do Hospital Federal de Bonsucesso.

No último dia 9, a médica denunciou a situação à Central estadual de Transplantes do Rio e informou que os pacientes candidatos a transplante seriam selecionados no HFB e “encaminhados para o Centro Transplantador”. 

Os pacientes Luciene, Marilane, Patrícia e Mauro (em sentido horário) aguardam em fila por transplante de rim no Hospital de Bonsucesso

“O Hospital de Bonsucesso é a única referência que temos há muitos anos. Eu faço dois anos de diálise e tenho esperança de conseguir uma doação de rim. Precisam suprir essa carência de medicamento. Isso é o mínimo”, pede o aposentado Mauro Vieira. 

Marilane da Silva Lindolfo, de 41 anos, aguarda, há dois, a possibilidade de se retransplantar. Há 27 anos fez seu primeiro transplante de rim. O órgão parou de funcionar e, agora, só restam sessões de diálise e esperança de encontrar um novo doador.

“Agora temos mais uma dificuldade, além de conseguir um rim saudável e compatível conosco. Precisamos dar um pouco mais de visibilidade para essa questão, pois não temos muito tempo a perder”, destaca.

Moradora de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, Patrícia Freitas, de 31 anos, aderiu à diálise peritonial. O procedimento dura 10h diárias.

“O tratamento no Rio de Janeiro está cada vez mais difícil. Estou pensando, seriamente, em me mudar para São Paulo, onde tenho familiares, e tentar continuar meu tratamento por lá. Talvez seja mais fácil. Se no HFB, que é referência, as coisas não estão fáceis, imagine nos demais”, reclama a supervisora de logística. 

A espera de Maria Luciene de Paiva Dutra, de 49 anos, é ainda mais longa. Ela aguarda doador de rim desde 2013. Desde então, faz sessões de diálise semanalmente. 

“Os pacientes ficam muito ansiosos. Só nos resta aguardar e torcer para que todos esses problemas sejam resolvidos”, deseja Sônia Dutra, irmã de Luciene.

Segundo contam os médicos, o problema de abastecimento do imunossupressor vem desde o início do ano, quando, em fevereiro, terminou o último lote disponível da unidade. 

“Com o processo de compra enrolado, pedimos emprestado a hospitais da Lagoa e ao Inca. Depois, o fornecedor não tinha disponível. Conseguimos 20 frascos que duraram só até dia 26 de junho”, conta Maria Célia Carvalho Pereira do HFB.

A unidade é a que mais realiza transplantes em todo o estado – 80% das cirurgias renais do Rio de Janeiro. No ano passado foram realizados 91 transplantes desse tipo. Este ano, 48 cirurgias já foram feitas

Normalização 

Procurada, a assessoria de imprensa do hospital informou que o medicamento em questão está em falta no mercado e que “desde quando a Anvisa alertou, há 6 meses, que o insumo se tornaria escasso, o hospital vem trabalhando no sentido de manter o estoque mínimo necessário para garantir a demanda”, e que não houve paralisação dos transplantes. Um lote do remédio, que seria suficiente para abastecer a unidade pelos próximos meses, será entregue, segundo a direção da unidade, na próxima terça (17). Enquanto isso, “o hospital poderá obter mais unidades, por empréstimo com outro hospital da rede”.