Jornal do Brasil

Sociedade Aberta

Lula e Marisa Letícia

Selvino Heck, Jornal do Brasil

10 de maio de 2017, primeiro depoimento de Lula ao juiz Sérgio Moro em Curitiba. Dia seguinte, 11 de maio, estranhamente, ou não tão estranhamente, os jornalões, O Globo, Folha, Estadão, e a mídia em geral, para falar mal de Lula, colocam nas manchetes dona Marisa Letícia como principal personagem, falecida em fevereiro deste ano. 

1.Conheci Lula pessoalmente em 1981, segundo Encontro da ANAMPOS (Articulação Nacional dos Movimentos Populares e Sindicais), acontecido no Instituto Paulo VI em Taboão da Serra, SP. Nos Encontros da ANAMPOS, foram plasmados os princípios e diretrizes que iriam nortear as relações entre o movimento sindical combativo, as lutas e organizações urbanas, as lutas do campo, que acabaram resultando na CUT e na CMP (Central de Movimentos Populares). Estavam presentes dirigentes sindicais urbanos e rurais de todo Brasil, lideranças dos movimentos populares, militantes das pastorais sociais, educadores populares de ONGs, todos aqueles que, pela base, em meio à ditadura, faziam o trabalho de organização popular e conscientização dos mais pobres e trabalhadores, lutando por direitos, Diretas-Já e democracia.

Antes disso, já tinham sido organizados, Brasil afora, os Fundos de Greve de apoio às greves dos metalúrgicos do ABC, como fizemos nas vilas populares da Lomba do Pinheiro e em tantos outros lugares e comunidades.

Muitas lutas, mobilizações, greves e eleições depois, sou convidado por Frei Betto para integrar a equipe do TALHER, grupo de educadores e educadoras que vai atuar na mobilização, formação e conscientização no Fome Zero e nas políticas sociais do primeiro governo Lula, resultando na Rede de Educação Cidadã, RECID.

Líderes populares comprometidos com seu povo, como Lula, são sempre, e serão sempre, perseguidos ao longo da história.O menino que saiu de Garanhuns com a mãe e os irmãos à procura do paique havia se ‘perdido’ em Santos, plasmou na fome, na pobreza, na viagem para dentro do Brasil profundo e, mais tarde, nas lutas dos trabalhadores metalúrgicos sua visão de mundo, seus sonhos, sua utopia.

2.14 de maio de 2017, Dias das Mães. Escrevi um poema em homenagem à Marisa Letícia, em fevereiro, e que agora, nesta data, dedico também à dona Lindu, mãe de Lula, aos 90 anos de mamãe Lúcia, agricultora familiar lúcida e trabalhadora, àIrani e Maria, respetivamente mãe e avó de Lucas Neres, que está em coma na Santa Casa em Porto Alegre (ver meu artigo A VIDA E A LUTA POR VIDA),à guerreira Dilma e a todas as mamães que lutam, que sofrem, que são injustiçadas, que perdem seus filhos e filhas na violência, e que fazem e constroem um Brasil de solidariedade e paz.

“TU ÉS NOSSA ESTRELA, MARISA LETÍCIA. Um poema de amor./ Estrelas existem parabrilhar./ Eternamente./Quando a gente as olha no céu,/ de noite,/ lua crescente,/ ou mesmo à luz do sol,/  parecem alguém velando por nós,/ alguém olhando a gente cá em baixo,/ para nós seres humanos mortais/ que vêem nas estrelas/ luz,/ eternidade,/ magia/, vida,/ plenitude,/ silêncio,/ Planeta Terra!

A gente olha as estrelas diariamente/ porque agente quer que elas rezem por nós,/ elas nos cuidem,/ elas nos protejam./ Elas são companheiras,/elasmantêm viva a chama da simplicidade,/ da justiça,/ da alegria,/ do querer nada em troca,/ da verdade,/ da ternura,/ da caridade,/ da utopia.

Estrelas não aplaudem a falsidade,/ não incentivam a hipocrisia,/ a ganância,/ o desamor,/  o ódio,/ a canalhice,/a intolerância.

Estrelas brilham para nos fazer amar,/ para nos dizer que somos seres humanos,/ somos peregrinos da paz/, da esperança,/ do Bem Viver.

Dona Maria Letícia,/ és uma estrela./ E, por favor, vela por teu companheiro e marido de uma vida,/por teus filhos  e filhas,/ que somos todas e todos nós,/ aqui neste chão bendito,/ aqui nesta terra brasilis,/ neste chão,/ nesta pátria que dizem abençoada por todos os deuses. 

Não permitas nunca, nunca,/ o choro incomunicável,/ as lágrimas sem compaixão,/ a dor quase insuportável/ a superar nossa vontade de viver./  Vamos continuar dizendo/ não e adeus aos poderosos de plantão,/ aos que envergonham nosso tempo,/ aos golpistas de ocasião,/ aos fariseus do templo,/ aos corruptos e ladrões,/ não e adeus aos facínoras,/ como disse  Lula,/ aos vendilhões sem quartel. 

Ajuda-nos a dizer sim à vida,/ sim à memória tua/ e de tantos injustiçados e tantas injustiçadas,/ sim à fé,/ sim   à democracia,/ sim à luta,/ sim à história.

Nunca seremos ratos/ a rastejar no esgoto da infâmia,/ nos bueiros da sujeira,/nas fezes da difamação,/ nos corredores da mentira,/ nas esquinas da delação.

 Somos e seremos sabiáscantadores,/ somos e seremos esquilos,/ somos e seremos águias a voar alto,/joões de barro a fazer seu próprio ninho/ e cuidar de suas crias.

Somos e seremos humanos,/ imensamente humanos,/iguais,/companheiras, companheiros,/ estupidamente solidárias,/ estupidamente solidários,/ irmãs uma das outras./ irmãos uns dos outros/ e de todos os seres vivos,/ hermanas,hermanos. 

Continuaremos tua jornada,/ todos os dias,/ sempre, sempre./ Não arredaremos pé,/ não fraquejaremos,/ não nos dispersaremos./Defenderemos sempre os pobres e os trabalhadores,/ os lascados e os oprimidos,/ os esquecidos dos governos,/ os mais fracos e deserdados,/ as operárias e os operários,/ os tristes e os desassistidos.

Seremos tua voz,/ tua bandeira,/ tua mão,/ teu pensamento,/ tua mão bordadeira,/ teus sonhos,/ teu coração./ Descansa em paz, estrela Marisa Letícia.”

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)