Jornal do Brasil

Sociedade Aberta

Novos Santos Brasileiros

Cardeal Orani Tempesta, Jornal do Brasil

O mês das missões e do rosário se iniciou com a Semana Nacional da Vida (Bendito é o fruto do teu ventre) e com o Dia do Nascituro (8 de outubro). Além disso Santa Terezinha, São Francisco, São Bruno, Santa Tereza e tantos outros santos e santas marcam esse tempo de tantas graças de uma igreja em saída que alegre anuncia o evangelho em missão permanente, coração da vida cristã. Para coroar com mais exemplos este mês, teremos a canonização dos mártires do Rio Grande do Norte que testemunharam a fé em 1645.No dia 03 de Outubro tivemos a graça de celebrar a memória desses mártires brasileiros, Padres André de Soveral, Ambrósio Francisco Ferro e seus companheiros. 

A palavra mártir vem do grego martys, martyros, que significa testemunha. O mártir é uma testemunha qualificada que chega ao derramamento do próprio sangue. O Papa Emérito Bento XIV assim se exprime: “O martírio é a morte voluntariamente aceita por causa da fé cristã ou por causa do exercício de outra virtude relacionada com a fé”. O Catecismo da Igreja Católica no seu § 2473 explica: “O martírio é o supremo testemunho prestado à verdade da fé; designa um testemunho que vai até a morte”. O Concílio Vaticano II nos fala sobre o martírio: “Visto que Jesus, Filho de Deus, manifestou Sua caridade entregando Sua vida por nós, ninguém possui maior amor que aquele que entrega sua vida por Ele e seus irmãos (cf. 1Jo 3, 16; Jo 15, 13). Por isso, desde o início alguns cristãos foram chamados – e alguns sempre serão chamados – para dar o supremo testemunho de seu amor diante de todos os homens, mas de modo especial perante os perseguidores. O martírio, por conseguinte – pelo qual o discípulo se assemelha ao Mestre, que aceita livremente a morte pela salvação do mundo, e se conforma a Ele na efusão do sangue – é estimado pela Igreja com exímio dom e suprema prova de caridade. Se a poucos é dado, todos, porém, devem estar prontos a confessar Cristo perante os homens, segui-lo no caminho da cruz entre perseguições, que nunca faltam à Igreja” (Lumen Gentium, nº 42).

Estes mártires serão canonizados no próximo dia 15 de outubro, domingo, pelo Papa Francisco. É um grupo de 30 mártires brasileiros, que foram declarados bem-aventurados (beatos) por São João Paulo II no ano 2000.  São dois sacerdotes, leigos, jovens, casais, pais e mães de família, crianças e adultos. Foram trucidados e mortos pela fidelidade à fé católica e pela defesa da Eucaristia.

Seguindo a divulgação de suas vidas encontrada nas redes sociais, conheçamos um pouco da história destes grandes heróis da fé:

Os Mártires de Cunhaú - Em 16 de junho de 1645, o Pe. André de Soveral e outros 70 fiéis foram cruelmente mortos por 200 soldados holandeses que tinham invadido o Brasil e índios potiguares que tinham sido cooptados por eles. Os fiéis estavam participando da missa dominical, na Capela de Nossa Senhora das Candeias, no Engenho Cunhaú – no município de Canguaretama (RN). O que motivou a chacina? A intolerância calvinista dos invasores que não admitiam a prática da religião católica: isso custou-lhes a própria vida. 

O movimento de insurreição contra o domínio holandês já começara em Pernambuco, mas, na capitania do Rio Grande do Norte, tudo parecia normal. Bastou, porém, a presença de uma só pessoa para que o clima se tornasse tenso: Jacó Rabe, um alemão a serviço dos holandeses. Ele chegara a Cunhaú no dia 15 de julho de 1645. Rabe era um personagem por demais conhecido dos moradores de Cunhaú. Suas passagens por aquelas paragens eram frequentes, sempre acompanhado dos ferozes tapuias, semeando por toda parte ódio e destruição. A simples presença de Rabe e dos tapuias era motivo para suspeitas e temores.

“No dia 16 de julho, Domingo, um grande número de colonos estava na igreja, para a missa dominical celebrada pelo Pároco, Pe. André de Soveral. Jacó Rabe mandara afixar nas portas da igreja um edital, convocando a todos para ouvirem as Ordens do Supremo Conselho, que seriam dadas após a Missa. Como havia um certo receio pela presença de Jacó Rabe, alguns preferiram ficar esperando na casa de engenho. Chegou a hora da missa. Os fiéis, em grupos de familiares ou de amigos, dirigiram-se à igrejinha de Nossa Senhora das Candeias. Levados apenas por cumprir o preceito religioso, os fiéis não portavam armas, mas só alguns bastões que encostaram nas paredes do pórtico” (Retirado do site: http://arquifln.org.br/noticias/primeiros-martires-brasileiros-por-pe-jose-artulino-besen/ Acesso: 03/10/2017).

“O Pe. André inicia a celebração. Após a elevação da hóstia e do cálice, erguendo o Corpo do Senhor, para a adoração dos presentes, a um sinal de Jacó Rabe, foram fechadas todas as portas da Igreja e se deu início à terrível carnificina. Foram cenas de grande atrocidade: os fiéis em oração, tomados de surpresa e completamente indefesos, foram covardemente atacados e mortos pelos flamengos com a ajuda dos tapuias e potiguares. Ao perceber que iam ser mesmo sacrificados, os fiéis não se rebelaram. Ao contrário, ‘entre mortais ânsias se confessaram ao sumo sacerdote Jesus Cristo, pedindo-lhe, com grande contrição, perdão de suas culpas”, enquanto o Pe. André estava “exortando-os a bem morrer, rezando apressadamente o ofício da agonia” (Retirado do site: http://arquifln.org.br/noticias/primeiros-martires-brasileiros-por-pe-jose-artulino-besen/ Acesso: 03/10/2017).

Os Mártires de Uruaçu- Três meses depois aconteceu o martírio de mais 80 pessoas, e sempre pelas mãos dos calvinistas holandeses. Entre elas estava o camponês Mateus Moreira, que teve o coração arrancado pelas costas, enquanto repetia a frase: “Louvado seja o Santíssimo Sacramento”. Isso aconteceu na Comunidade de Uruaçu, em São Gonçalo do Amarante (a 18 km de Natal). Estava também o Padre Ambrósio Francisco Ferro. 

“Também desta vez tudo aconteceu sob o comando de Rabe, ajudado pelo chefe potiguar Antônio Paraopaba. Os índios já tinham sido avisados das intenções dos dois e lá estava o chefe potiguar com os seus comandados: mais de duzentos índios, bem armados. Logo que desceram dos batéis, os flamengos ordenaram aos moradores que se despissem e se ajoelhassem. A um sinal dado por eles, os índios, que estavam emboscados, saíram dos matos e cercaram os indefesos colonos. Teve início, então, a terrível carnificina, descrita com impressionante realismo pelos cronistas portugueses. Nas descrições, nota-se o contraste entre a crueldade dos algozes e a resignação e o perdão das vítimas: “Começaram a dar tão desumanos e atrozes tormentos aos homens que já muitos dos que padeciam tomavam por mercê a morte. Mas os holandeses usaram da última crueldade entregando-os aos tapuias e potiguares, que ainda vivos os foram fazendo em pedaços, e nos corpos fizeram anatomias incríveis, arrancando a uns os olhos, tirando a outros as línguas e cortando as partes verendas e colocando-as nas bocas…” (Santiago). (Retirado do site: (Retirado do site: http://arquifln.org.br/noticias/primeiros-martires-brasileiros-por-pe-jose-artulino-besen/ Acesso: 03/10/2017).

Terríveis situações de católicos martirizados no século XVII em nosso país e agora elevados às honras dos altares. Nestes tempos de tantas intolerâncias e vinganças é importante descobrir que o mártir católico não se rebela mas perdoa o algoz como fez Jesus no alto da Cruz. Ao contemplar para a vida destes mártires e beatos e daqui alguns dias Santos peçamos a graça de viver ainda mais a fé em Jesus Cristo como Igreja servidora em saída anunciando a boa nova da salvação a todos. Acolhamos o testemunho desses mártires que foram testemunhas do Senhor em meio a perseguição e não abandonaram a fé. Sabemos que “o Sangue dos mártires é a semente de novos cristãos” e por isso peçamos o dom da perseverança e da missionariedade como alegres discípulos do Senhor..

Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ