Jornal do Brasil

Sociedade Aberta

Dia mundial dos pobres

Cardeal Orani Tempesta, Jornal do Brasil

Iniciamos a semana preparatória para celebrar o Dia Mundial dos pobres. O Papa João XXIII que, às vésperas do Concílio Ecumênico Vaticano II, usou a expressão “Igreja dos pobres”. Em sua mensagem ao mundo no dia 11 de setembro de 1962, falando de Cristo como luz do mundo e da missão da Igreja de irradiar essa luz, exprimiu de forma surpreendente e inesperada, o que qualifica como um ponto luminoso: “Pensando nos países subdesenvolvidos, a Igreja se apresenta e quer realmente ser a Igreja de todos, em particular, a Igreja dos pobres” (Retirado do site: https://w2.vatican.va/content/john-xxiii/pt/speeches/1962/documents/hf_j-xxiii_spe_19621011_opening-council.html. acesso pela última vez em: 01/11/2017).

Em que consiste concretamente esse ser dos pobres, ou como ele configura a Igreja em sua totalidade, depende do contexto histórico, das expressões que a pobreza e a opressão vão adquirindo, bem como das reais possibilidades, esforços e lutas por sua superação. Estamos, portanto, diante de uma verdade de fé que se verifica (faz-se verdade) na história, adquirindo, assim, distintas configurações e expressões.

A Igreja dos pobres é uma Igreja na qual os pobres estão no centro; uma Igreja que se faz com origem e em função dos pobres e que encontra neles seu princípio de estruturação, organização e missão. E isso marca e determina radicalmente a Igreja em sua totalidade: quando os pobres se tornam o centro da Igreja, eles dão direção e sentido a tudo o que legitimamente e necessariamente constitui a realidade concreta da Igreja: sua pregação e ação, suas estruturas administrativas, culturais, dogmáticas, teológicas etc.

Os fundamentos teológicos são claros: “deriva da nossa fé em Jesus Cristo” (EG, 186), “deriva da própria obra libertadora da graça em cada um de nós” (EG, 188). Não é uma questão meramente opcional. É algo constitutivo da fé cristã (cf. EG, 48). Por isso mesmo, os cristãos e as comunidades cristãs “são chamados, em todo lugar e circunstância, a ouvir o clamor dos pobres” (EG, 191) e a “ser instrumentos de Deus ao serviço da libertação e promoção dos pobres.” (EG, 187).  (Retirado do site: https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html. acesso pela última vez em: 01/11/2017).

A expressão “pobre” tem um sentido bastante amplo para o Papa Francisco. A Igreja tem a graça de celebrar no próximo dia 19 de novembro, o primeiro Dia Mundial dos pobres. Para isso, o Papa Francisco dirigiu uma mensagem a todo “orbe católico” falando e motivando sobre esta tão importante data instituída. O tema da carta foi: “não amemos com palavras, mas com obras”. 

O Papa Francisco cita em seu discurso o exemplo deixado por São Francisco de Assis: “assumamos, pois, o exemplo de São Francisco, testemunha da pobreza genuína. Ele, precisamente por ter os olhos fixos em Cristo, soube reconhecê-Lo e servi-Lo nos pobres. Por conseguinte, se desejamos dar o nosso contributo eficaz para a mudança da história, gerando verdadeiro desenvolvimento, é necessário escutar o grito dos pobres e comprometermo-nos a erguê-los do seu estado de marginalização. Ao mesmo tempo recordo, aos pobres que vivem nas nossas cidades e nas nossas comunidades, para não perderem o sentido da pobreza evangélica que trazem impresso na sua vida” (Retirado do site: https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/messages/poveri/documents/papa-francesco_20170613_messaggio-i-giornatamondiale-poveri-2017.html. acesso pela última vez: 01/11/2017).

Disse o Papa Francisco: “conhecemos a grande dificuldade que há, no mundo contemporâneo, de poder identificar claramente a pobreza. E todavia esta interpela-nos todos os dias com os seus inúmeros rostos marcados pelo sofrimento, pela marginalização, pela opressão, pela violência, pelas torturas e a prisão, pela guerra, pela privação da liberdade e da dignidade, pela ignorância e pelo analfabetismo, pela emergência sanitária e pela falta de trabalho, pelo tráfico de pessoas e pela escravidão, pelo exílio e a miséria, pela migração forçada. A pobreza tem o rosto de mulheres, homens e crianças explorados para vis interesses, espezinhados pelas lógicas perversas do poder e do dinheiro. Como é impiedoso e nunca completo o elenco que se é constrangido a elaborar à vista da pobreza, fruto da injustiça social, da miséria moral, da avidez de poucos e da indiferença generalizada!” (Retirado do site: https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/messages/poveri/documents/papa-francesco_20170613_messaggio-i-giornatamondiale-poveri-2017.html. acesso pela última vez: 01/11/2017).

Contudo, o Papa Francisco ao instituir o Dia Mundial dos pobres, ele quer que as comunidades reflitam e façam algo concreto pelos pobres. Em nossa Arquidiocese, iniciaremos com um Fórum Social. Este faz parte do Calendário do Dia Mundial dos Pobres idealizado pelo Papa Francisco. Este momento de formação é voltado especialmente para as pessoas que trabalham com as diversas situações de pobreza. Este encontro será neste sábado, dia 11 de novembro de 2017, de 8h às 17h, no Auditório do 2° andar, do Edifício João Paulo II, Rua Benjamin Constant, 23, Glória. 

Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ