Jornal do Brasil

Sociedade Aberta

Análise de uma interessante mas inútil discussão

Celso Franco, Jornal do Brasil

No início da semana que passou, a grande mídia, com destaque, publicou uma matéria baseada numa tese de doutorado, a ser defendida na Universidade de Oxford, por um economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), tendo como título : Avanço Desigual e, como subtítulo: O desafio da mobilidade urbana.

A matéria é muito bem apresentada, inclusive com um mapa colorido das regiões de diversas rendas, da cidade, apresentando dados, baseados nos tempos de percurso dos locais de moradia aos locais de trabalho, com a afirmação temerária de que: “ Os investimentos para a Copa e Olimpíada favorecem mais a parcela rica da população do Rio”, como se fosse possível isto acontecer. Procura o autor da tese enfocar a falta de respeito à desigualdade social.

Li a reportagem com atenção e, mais uma vez, preocupado com um economista escrever sobre assunto de engenharia de tráfego, onde a influência da mobilidade urbana e suas possíveis soluções passam ao largo.

Nada pretendia escrever sobre esta reportagem, mas a resposta lógica e sensata do engenheiro de tráfego e transporte, Alexandre Sansão, responsável pelo governo municipal que supervisionou as obras de melhoria do que, a maioria entende como mobilidade urbana, técnico sobre o qual tenho a melhor das impressões, com serviços prestados ao trânsito do Rio quanto à sua fluidez, como a sua segurança, publicado no mesmo veículo da grande mídia, embora com menor destaque, resolvi analisar, com isenção, o que estariam discutindo em termos elevados, mas com pouca profundidade filosófica sobre o problema básico.

O engenheiro Sansão procura demonstrar que o parâmetro do tempo de viagem não é seguro para servir de base para julgamento da  melhoria de mobilidade urbana., o que é um fato como iremos procurar demonstrar, partindo do princípio básico para se examinar o assunto que são as definições de trânsito resolvido e mobilidade urbana. Vamos a elas, baseadas no aprendizado dos grandes mestres do passado recente, abandonados pelo vício de se utilizar simulações em computador, quando o elemento básico é o motorista, cujas reações comandadas pelo princípio do PIEV (Percepção,Inteligência,Emoção e Volição) nenhum computador considera.

Trânsito resolvido é se ter o direito a um orçamento de tempo para se deslocar de qualquer ponto da cidade para outro. Este orçamento será tanto menor quanto mais eficiente forem as medidas de engenharia de tráfego para aumentar o rendimento da malha viária, e consequentemente, a sua mobilidade urbana.

Mobilidade urbana é um rendimento da malha viária,que permita se ter uma faixa de rolamento,devidamente sinalizadas em seu piso, com “PISTA LIVRE” nas vias de mão única, de trânsito rápido e expressas, esta  faixa a ser liberada, ao som do alarme de qualquer veículo de socorro, principalmente a ambulância.

O ex-secretário Sansão aponta, por exemplo, as novas linhas de BRT, capazes de aumentar o conforto e de diminuir o tempo de viagem de seus passageiros, o que é verdade, e atinge muito mais aos menos favorecidos, contumazes usuários dos ônibus do que aos mais favorecidos que utilizam carros de passeio. O BRT não tira automóveis das vias pelo simples fato de não oferecer o mesmo conforto e nem atender ao sentimento de preguiça, segundo Henry Ford, da pessoa humana, razão segundo ele, do sucesso de seu invento.

O único transporte de massa capaz de tirar carros de passeio das vias é o metrô, de custo elevadíssimo e longo tempo para sua construção, numa cidade que emplaca 4 mil carros por mês. Poder-se-ia até acusar este meio de transporte de elitista, face ao que ocorre no terminal do “Jardim Oceânico, da linha 4, onde é visível a enorme quantidade carros de passeio estacionados nas ruas no entorno deste terminal, pertencente a seus usuários. É claro que não atende somente aos mais ricos, sendo talvez o transporte mais democrático existente no mundo. Transporte para classes distintas não existe, somente teóricos, talvez por ideologia, podem admitir isto.

A verdadeira e única solução, em curto prazo para se aumentar a mobilidade urbana e se diminuir os orçamentos de tempo para ir e vir de qualquer ponto da cidade é o sistema de Utilização Racionada das Vias, o URV, cujo seu emprego, como qualquer melhoria de circulação, favorece aos pobres e ricos, sem esta bobagem de favorecer aos mais ricos. É o uso racionado de uma oferta incapaz de atender á demanda, como acontece em qualquer situação idêntica da necessidade do consumo do ser humano.

Qualquer outra teoria, mesmo ideológica, neste importante setor do trânsito urbano, nos permite repetir o dito popular: “É conversa para inglês ver”, até mesmo para os professores da Universidade de  Oxford.